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quarta-feira, 28 de maio de 2014

RELATO Nº 49


Para os meus agressores:


Esse relato é uma tentativa desesperada de conseguir me livrar de toda essa dor que existe em mim. É anônimo, por questões um pouco óbvias, mas tudo o que consta aqui aconteceu de verdade. Tem esse título porque é tudo o que eu queria poder dizer para os meus pais, mas não consigo.


A primeira lembrança de um abuso sofrido tendo meu próprio irmão como algoz, foi aos 9 ou 10 anos. Meu irmão é 4 anos mais velho do que eu.
A minha primeira lembrança era dele, saindo do banho, enrolado na toalha, perguntando se eu queria ver ele nu. Fiquei sem reação e não consegui dizer nada. Então, ele tirou a toalha do corpo e me mostrou seu pênis, começando a se masturbar na minha frente.
Eu nunca soube dizer não.
Eu nunca consegui contar pros meus pais.

A partir dessa primeira lembrança, os abusos começaram a ser diários. Desde ter ele esfregando os genitais no meu, ou pedindo para que eu segurasse seus genitais, até ter ele ejaculando em diversas partes do meu corpo, como seios, costas, boca, mãos. Era comum ele se masturbar até gozar em mim ou na minha frente. Os abusos sempre aconteciam quando meus pais não estavam em casa, quando estavam no trabalho, mas a partir de certo momento, começaram a acontecer mesmo com a presença dos meus pais em casa, normalmente quando íamos dormir (eu e meu irmão dividíamos o mesmo quarto, porque a casa em que morávamos era pequena e só tinha dois quartos, um para os meus pais e um para as crianças). Certa noite, eu estava na minha cama, quase dormindo, quando meu irmão chegou, tirou seu pênis pra fora e começou a roçar em mim, nos meus genitais. Eu não disse nada, só fiquei parada. E nesse dia, meus pais descobriram tudo. Minha mãe abriu abriu a porta do quarto e nos viu. A partir desse momento, tudo virou um caos maior ainda.

Minha mãe começou a chorar, acordou meu pai e os dois vieram conversar conosco. No fundo eu me sentia aliviada, porque aquela história parecia que teria um fim. Meu pai fez perguntas que na época eu nem entendia o que significavam ("você penetrou sua irmã?", "você ejaculou nela?"). Tenho certeza que meu irmão mentiu em algumas respostas. Eu estava paralisada, com medo. Lembro poucas coisas dessa noite, quem sabe mais pra frente eu tenha mais memórias. Nessa noite, minha mãe me fez ir dormir no quarto dela, longe do meu irmão. Eu estava tão atordoada! Eu fui, dormi e no dia seguinte, ao acordar, com a cara enfiada no travesseiro, morrendo de vergonha, as primeiras palavras que eu ouvi foram: "e aí filha, está orgulhosa do que você fez ontem a noite?" no maior tom de desdém e culpa que já ouvi em toda a minha vida. Essas palavras nunca saíram da minha mente e estão aqui, até hoje, ecoando. A vergonha que eu senti naquela manhã e em todos os outros dias seguintes me mata até hoje.
Hoje eu sei o quanto isso afetou toda a minha vida escolar e afetiva (até hoje). Agora consigo entender porque sempre fui uma adolescente tão ansiosa, carente, com uma auto-estima terrível. Não tenho lembranças de ver meus pais conversando seriamente com meu irmão sobre como aquilo era errado e, muito menos conversaram comigo pra tentar resolver essa situação. A única coisa que sei é que, a partir desse dia, passamos a dormir em quartos separados e um silêncio pesadíssimo pairou em cima dessa história. Nunca mais falamos sobre isso. Nunca mais meus pais me perguntaram nada. Silenciaram a violência dentro da nossa própria casa, dentro do nosso espaço seguro.

Eu não consigo compreender o que houve a partir daí. Minha analista disse que o silêncio dos meus pais foi o consentimento para que os abusos continuassem. Essa interpretação pode parecer meio torta, mas tem feito todo o sentido desde então.
Acredito que meus pais achavam que essas "coisas" (como eles mesmos nomeavam os abusos) não voltariam acontecer após uma bronca. Porém, a falta de cuidado, a negligência e principalmente a falta de diálogo, acabaram incentivando mais ainda a violência dentro de casa. Não houve punição, não houve acompanhamento, então, caminho livre para que tudo se repetisse.

Sei que os abusos só pararam quando eu completei 15/16 anos, quando tive meu primeiro namorado e quando meu irmão encontrou a menina com a qual veio a se casar depois. Sei que esse período todo, depois dos meus pais terem descoberto e supostamente terem feito algo, foi o período onde os abusos ficaram mais sérios e mais marcantes, pois se tornaram diários, rotineiros, naturais:

Eu era penetrada quase todos os dias. Em algumas vezes, penetração anal.
Eu era coagida a engolir esperma. Eu era coagida a deixar ele ejacular em mim. Quase todos os dias.
Eu era coagida a tomar banho com ele.
Eu passei minha pré-adolescencia e minha adolescencia inteira com o pânico de engravidar do próprio irmão.
Eu fui exposta à pornografia desde muito cedo. Eu assisti muitos vídeos pornográficos e era coagida a reproduzir o que eu via neles. Isso acontecia quase todos os dias.
Eu fui chamada de puta, putinha, piranha e prostituta pelo meu irmão, durante muito tempo. A primeira vez aconteceu quando eu tinha 13 anos e enquanto ele me estuprava, falou: "prenda esse cabelo que fica caindo na minha cara, parece uma puta pobre".

Meus pais nunca souberam do que aconteceu após aquele "flagra". Eles nunca souberam que eu fui estuprada dos 10 aos 15 anos pelo meu irmão mais velho e que isso só parou porque eu, com 16, comecei a namorar e ter uma vida sexual consentida, ele também começou a namorar. Até hoje me pergunto se não fosse essa pessoa ter aparecido na minha vida aos 16 anos, onde eu estaria? Como estaria? Grávida do meu irmão aos 15 anos? Hostilizada e humilhada pela minha família? Meu irmão, 4 anos mais velho do que eu, mantinha uma vida sexual ativa com suas namoradas e ficantes. Quantas doenças eu poderia ter contraído em relações não-consensuais? Meus pais nunca prestaram atenção em nada disso e mesmo depois do alerta, continuaram negligentes, me negando diálogo e uma educação sexual consciente. Me negaram afeto, atenção e voz.

Depois de muito pensar, cheguei a conclusão de que eu demorei muito pra desenterrar essa história (só consegui assumir que isso foi um abuso agora, aos 21 anos e que todo esse abuso minou minha sexualidade e auto-estima durante todo esse tempo) porque sempre acreditei que essas relações tinham sido minha culpa, que eu nunca disse nada, que eu nunca reagi. Mas só agora eu fui entender que falta de consentimento não tem a ver necessariamente com violência, sangue, dor física. Pra mim, durante toda minha pré-adolescencia e adolescencia, teve a ver com medo, com humilhações diversas, com falta de afeto e atenção dentro de casa. Eu, com 12 anos, fiz o que pude. Eu, com 15 anos, fiz o que pude. Eu sempre fiz o que pude fazer, que na maior parte do tempo foi nunca reagir, porque o medo e a repulsa me paralizaram. Por anos.

Então hoje, eu escrevo essa carta para meus pais. Eu espero um dia poder destiná-la, realmente, pra vocês. Pra que vocês saibam que essa dor que hoje me destrói e me corrói e que me faz ter uma vida turbulenta e infeliz, que me prejudica nos meus relacionamentos afetivos, que me prejudica no meu trabalho e nos meus estudos, essa dor que me faz sobreviver um dia após o outro, quase sempre querendo morrer, que me faz não saber aceitar as coisas boas que algumas pessoas tentam me proporcionar, que essa vida onde estou acostumada somente com a dor, com as diversas mutilações, essa dor é culpa de vocês, da falta de cuidado, de afeto, de um olhar atencioso, de diálogo, de empatia. Essa dor, que começou a ser desconstruída agora, não deveria doer em mim, mas sim em vocês. 
E eu espero que um dia essa dor chegue em vocês e os mate, como tem tentado me matar, todos os dias.

E também, em nenhum momento eu tiro a responsabilidade do meu agressor direto, meu irmão mais velho. Ele, quarto anos mais velho que eu, manteve amizade com um amigo que também abusou de mim quando eu era criança (e o amigo mais velho que ele), também sabia o que estava fazendo. Eu não tento criar espantalhos nem alvos, mas no momento, até eu conseguir começar a superar essa história, eu preciso nomear as coisas para continuar sobrevivendo com essa dor. Então, eu não tive apenar um agressor, eu tive três. Três agressores que me propiciaram um ambiente de medo, culpa, vergonha, falta de auto-estima e dor.

Hoje só consigo encontrar forças nas pessoas que estão ao meu redor para poder tentar sobreviver. Elas têm tido um papel essencial de cuidado e atenção e eu não sei como estaria vivendo sem elas. Então, mesmo anônimo, deixo dois agradecimentos. Um, pra uma grande amiga que compartilha uma história de violência parecida com a minha e que também foi publicada aqui (obrigada querida, você foi uma parte importantíssima pra essa minha reviravolta e minha superação, eu amo você e nós vamos superar, mesmo que doa e que seja difícil) e outro, pra pessoa que está comigo a quase um ano e que vem fazendo parte de diversas descobertas da minha vida, uma mulher maravilhosa e forte que me faz sentir alguém um pouco melhor sempre e que dá sentido a muitas coisas em meio a esse caos (obrigada, beibes, acho que sem você por perto, eu já teria desistido).


Esse relato é um desabafo e um alerta. Publicizar minha vida pessoal, mesmo que de um jeito anônimo, é muito dolorido e angustiante e só faz sentido se for servir de alerta pra outras pessoas e outras famílias. Prestem atenção nas crianças, ouçam elas, deem amor e afeto e atenção e não as deixe à mercê da solidão e da ausência. Sejam presentes, sejam bons e afetuosos. Confiem nelas, acima de tudo. O amor e a atenção constroem mais do que essa necessidade que as famílias têm de ver crianças independentes cada vez mais cedo. Acredito que esse tipo de violência intra-familiar é mais comum do que pensamos, infelizmente.


Força pra todas nós.

A.

RELATO N° 48

Relato Nº 48

T. Queria poder tirar essa dor de ti, mas não tenho esse poder, saiba que te admiro, tu é linda e ainda quero te abraça pessoalmente!  

"Tinha dez anos a ultima vez, foi a unica que reagi, que gritei, empurrei, disse NÃO. A ultima vez foi violenta. Na ultima vez fui penetrada. Tinha ente 4/5 anos quando começou. Foram meus dois irmãos, primos e amigos dos meus irmãos. Não sei exato quantos, só lembro dos abusos que sofri. Lembro do meu corpo estático. Lembro de ficar quieta. Lembro de quase não me mexer. Lembro de que as vezes eu "gostava". Hoje sei, "gostava" porque havia estimulo, por ficarem se esfregando nus em mim, também nua.
A questão não é quando começou, mas porque começou.
Minha família é uma tipica família tradicional, cristã e não podia faltar, claro, machista. Por anos, fui a unica neta e sobrinha mulher, por anos eu fui a atenção da família por ser mulher. Atenção esta, que causou inúmeros desejos. Por anos eu era/fui o objeto de desejo.
Não quero fazer analises teóricas sobre o meu relato, quanto a "moral e bons costumes", vou apenas pontuar algumas questões. Nesta noção de moral e bons costumes, inclui transformar a mulher em objeto de desejo. Ensina-se desde pequena um comportamento aceito/desejado para uma mulher, ao mesmo tempo que ensina-se homens a desejar este objeto, à mulher.
Na minha família não foi diferente. Filha caçula, com dois irmãos mais velhos e inúmeros primos, tios e pai. Fui criada para ser a tal "mulher de verdade" enquanto os meninos da família foram criados para serem "machos". Os machos aprenderam muito bem diga-se de passagem. Os primeiros contatos sexuais deles com o objeto de desejo, o corpo feminino foi o meu. Me usaram para satisfazer os desejos que desde pequenos foram estimulados.
Eu era a figura feminina que se encontrava sozinha com eles. Era a figura feminina que eles ouviam dos mais velhos, que deviam "pegar muito". E de fato, pegaram, pegavam e fazia o que queriam.
Crianças tem sexualidade, isto é inegável, se não tivesse, meu corpinho de criança, não teria sido "brinquedo" dos meninos da mesma idade (Primo) e um pouco maiores (irmãos e os amigos deles) por tantos anos.
Foram assim boa parte da minha infância, meu corpo sendo usado como "brinquedo" praticamente todos os dias por eles. No inicio era como brincadeiras inocentes, brincadeiras escondidas. Você que esta lendo pode até lembrar de ter brincado assim com suas primas, irmãs, amiguinhas, quem sabe você que esta lendo não foi a prima, irmã e amiga. Você que esta lendo pode lembrar de ter brincado com seus genitais, junto com outros. Porque sim, crianças também sente prazer. A questão que quero levantar é, até que ponto um adulto não deve interferir nestas brincadeiras? De que maneira deve-se orientar estas crianças para que esta brincadeira não se torne um abuso sexual? De que maneira deve-se orientar estas crianças a não abusarem de outras crianças?
Por muitas vezes lembro que não, eu não queria nenhum pouco estar lá. Não queria "brincar" com eles, mas não adiantava, eles simplesmente chegavam, "brincavam" e iam brincar com outras coisas. Nunca contei porque por varias vezes fui reprimida, eu não podia me tocar, se me toca-se apanhava, levava bronca. Não contei que "brincavam" porque não queria apanhar, não queria levar bronca. Afinal não brigavam com os meninos, para eles sempre ouvi e vi os adultos incentivarem a se tocarem "Cadê o pipi?", "Já tem pelos?", "Ta grande?", "Faz chichi na grama mesmo", "Este vai ser garanhão, pequeno assim já é taradinho"... estas frases são algumas das outras tantas que ouvi a vida toda sendo dirigida aos meninos. A mim sempre foi dito "Tira a mão", "Feio, não pode", "É sujo, não pode"...
Eu era uma menina de 4/5 anos que ouvia de um adulto que meu corpo era feio, sujo e que eu não podia me tocar, isto foi dito a mim sozinha e foi dito na frente dos meus irmãos e primos. Eles eram incentivados, eu não. Eles podiam se tocar, logo podiam tocar o meu corpo, porque eu não podia. Parece ilógico? Sim, e é de fato, mas que parte da educação machista tem lógica?
Consequência destas "brincadeiras", quando tinha por volta de 7/8 anos, percebi que aquilo era errado e passei a evitar ficar com eles, quando ficava, era abusada. E foi assim até meus 10 anos. Evitava quando podia. Aos 10 meu irmão mais velho tinha 14 anos e naquele dia ele decidiu que não ia mais brincar, mas sim me estuprar e assim o fez quando abri a porta do banheiro para sair. De forma agressiva sem me dirigir uma palavra. Gritei, o empurrei, chorei., apanhei.
Por anos, esqueci o que tinha acontecido, depois daquele dia minha memória apagou todos os abusos e inclusive aquele. Por anos carreguei uma agonia gritante ao entrar em banheiros, tinha medo e não me lembrava por que. Por anos, ia para o banho e não tomava, não conseguia tirar a roupa, simplesmente ligava o chuveiro e deixa a aguá cair, molhava os pés e mãos, molha um pouco a toalha, trocava de roupas rapidamente e saia. Por anos eu não sabia porque fazia aquilo. Hoje eu lembro. Por anos tive pesadelos com aqueles abusos e agora tudo veio a tona. Não eram pesadelos apenas, esta foi a minha infância. Agora eu entendo tudo que aconteceu comigo dentro da minha casa.
Escrevo em meio as lágrimas, porque dói lembrar de tudo isto. Dói saber que ninguém me ajudou. Dói saber que já conversei com sete caras que me confessaram aos risos que brincaram com as primas quando crianças. Dói pensar nestas sete primas. Dói lembrar que tenho uma amiga com uma história de abuso parecida. Dói andar nas ruas e ver crianças e imaginar que possa ter adultos completamente despreparados cuidando deles. Dói pensar que pais e mães irresponsáveis quando crianças, também "brincaram" sozinhos sem a devida orientação. Dói pensar que muitos homens podem ter estuprados mulheres achando que estavam apenas "brincando". Dói saber que a sociedade educa todos para acreditarem que mulheres são meros pedaços de carne.
Preciso dizer também que estes não foram os únicos abusos, sofri três tentativas de estupros depois. Aos 11 por um amigo da família. Este eu contei para a minha mãe, que me disse que homens fazia aquilo mesmo, que eu deveria me cuidar. Chegou a compartilhar a história dela também, um tio tentou estupra-la e ela conseguiu fugir. Me contou como quem dava um exemplo de que sim. Homens atacam, homens são assim e não há nada que a gente faça que vai poder mudar isto. Minha mãe acredita nisso. Eu não. Sofri outra tentativa aos 18/19, desta vez foi o chefe, nunca contei pra ninguém. A outra foi aos 21, uma festa com amigos, bebi e um dos "amigos" começou a sessão de "amasso". Pedi para parar, empurrei. Uma amiga veio e tirou ele de cima de mim.
Quando dia 23, namorava com um cara, era muito apaixonada por ele. Ele me estuprou uma vez e só lembrei disso a pouco tempo. Disse que não queria transar, mas ele insistiu, começou a se esfregar em cima de mim, meu corpo paralisou, foi como se eu tivesse voltado aos meus 4/5 anos, ele continuou e só parou porque ficou bravo de eu não estar "participando" do estupro. Voltei a realidade só consegui dizer, que não estava afim de transar, angustiada por estar sentindo uma sensação horrível que não sei explicar. Só terminei o namoro porque este mesmo cara me bateu, me agrediu porque eu não quis ir dormir na casa dele.
Entro em pânico quando sou "cantada" na rua, porque tudo que dizem eu ouvi da boca de todos os que já abusaram de mim. Tenho a constante impressão que qualquer dia vou matar um cara. Sempre respondo com muita agressividade quando passam a mão em mim.
O que queria dizer é que sim, nós vivemos em uma cultura machista. Estupradores não são doentes. Todo homem é um potencial estuprador. A cultura machista educa homens para serem assim e educa mulheres para sofrerem estes abusos caladas. Mas eu não quero sofrer, não quer ser estuprada e que nenhuma criança passe por isto. Não quero que nenhuma mulher sofra.
Hoje luto, milito, grito, bato se for preciso. Meu corpo, minhas regras.
Homens insistem em dizer que mulheres feministas precisam de "rola" ou serem estupradas para aprenderem qual é o lugar delas. Pois eu quero-lhes dizer, eu já fui estuprada e não funcionou pra me fazer entender qual é o meu lugar enquanto mulher, me fez ter mais certeza que nenhum homem manda em mim e em nenhuma mulher. E e é por não querer que isto ocorra com as mulheres que luto e continuarei lutando. É por causa delas e das que ainda vão nascer que resisto. É pra dizer pra vocês que não, vocês não tem direito sobre nossos corpos, vidas e útero.
As mulheres cis e trans* quero dizer. Juntas somos mais fortes!"

RELATO N° 47

47º Relato

F. você nunca teve culpa de nada! Fico feliz em saber que estás superando e se empoderando! Você não está sozinha! 

"Eu nunca falei sobre isso. Hoje numa das paginas que sigo, em um dos comentarios, havia uma menina indicando a pagina, falando dos relatos. E vendo isso resolvi acabar com meu silêncio. Tive um namoro bem complicado que durou dois anos. No começo, nos davamos bem, ele fazia tudo para me ver feliz, e não media esforços. Porém, com o passar do tempo, ele mudou completamente. Tornou-se possessivo, nervoso, e frequentemente me agredia verbalmente. Falava que eu era uma puta, gorda, e que ninguem nunca gostaria de mim, exceto ele. Mas passadas essas crises , ele agia como se nada tivesse ocorrido, e eu sempre o perdoava. Depois, essas violências passaram a ser fisicas, sempre que ele brigava comigo, ou me xingava, depois me obrigava a fazer sexo com ele, mesmo eu protestando e dizendo que não queria.Eu o empurrava, o chutava, mas ele ficava falando que era meu dever, que eu tinha que fazer isso porque era namorada dele.E eu acaba cedendo, porque eu realmente achava que era meu dever. E essas agressões duraram quase um ano, e eu não contava nada a ninguem, porque eu achava normal. Fui criada somente pela minha mãe, e nunca tive uma base do que seria um relacionamento normal e saudavel entre duas pessoas. Até que comecei a ler sobre isso, e vi que isso na verdade, se tratava de estupro. Decidi terminar tudo, e mesmo depois de terminado o relacionamento, ele me perseguia nos lugares, ia ate a minha casa, me ameaçava. E como moro longe da minha mãe por motivos de faculdade, não tinha a quem recorrer. Apenas me calei. e graças a Deus ele desistiu de mim, parou de me perseguir. Eu me sentia mal , feia , com o corpo gordo demais, e "puta" demais pra ser amada. Hoje encontrei outra pessoa, e esse trauma apesar de um pouco recente, hoje não surte tantos efeitos negativos em mim.
Obrigada pelo espaço"

F.

RELATO N° 46

46º Relato 

M. vc é linda! E não está sozinha! 

"Sou a filha mais velha de um casal que sempre foi muito trabalhador. Minha mãe nunca foi do tipo que lavava, cozinhava e cuidava da casa, e por isso ela sempre dependeu de diaristas e empregadas mensais em casa. Justo na época em que eu crescia e começava a formar minhas concepções acerca dos relacionamentos humanos, minha mãe se encontrava submersa em uma profunda depressão, vítima do espírito controlador do meu pai. Não é que ele seja uma má pessoa - não é - mas se a gente se recolhe e deixa que ele tome conta da situação, ele nos afoga em suas vontades. E minha mãe, por ter um passado difícil, por ter crescido sem pai, sem referencial do que seria uma relação saudável entre um homem e uma mulher, vivia recolhida em si. Era frustrante, e eu a ODIAVA por isso. Entenda, eu nunca pude conversar com ela sobre sexo ou sobre namoros, e gostar de alguém.
Na verdade, eu descobri o sexo através de uma das empregadas que trabalhou pra gente. Ela tinha um relacionamento completamente perturbado com o porteiro do prédio em que morávamos, e, um dia, eu os flagrei em casa (devia ter por volta dos nove anos). O cara fez a cabeça dela pra me envolver nos jogos sexuais dos dois, e foi assim que me tornei um brinquedo sexual deles, por assim dizer. Não consigo recordar com clareza por quanto tempo ele "me usaram". As memórias desses tempos nunca me surgem claras ou em ordem cronológica. Creio ter sofrido o que os terapeutas chamam de dissociação. Recordo-me de momentos, isolados, mas não consigo ordená-los ou situá-los no tempo. Não posso dizer que sofri um estupro, porque entendo que para isso teria sido necessária ocorrer a penetração, certo? No começo, eles me obrigavam apenas a assistir enquanto faziam sexo na cama dos meus pais, ou na minha cama. Depois de um tempo, ela me obrigava a ficar por perto enquanto eles transavam e ele acariciava minha bunda. Daí pra tentar comer o cu, foi um passo. É sério, esse deve ter sido o dia mais estranho da minha vida, porque eu não sabia o que era aquilo, o que tava acontecendo. Ele me virou de quatro sobre a minha cama, e disse que ia me comer, acho que pôs uma camisinha e sem dó tentou forçar tudo pra dentro, só que eu gritei e ela impediu que ele continuasse - agora entendo que é porque alguém da minha família com certeza notaria e suspeitaria logo dela, que era minha babá. Uma vez ele me forçou a chupar o pau dele, eu lembro do gosto até hoje, era horrível.
Eu lembro do rosto dele, de como ele me olhava e de como eu me sentia tão pequena e suja, lembro de como ele costumava me chupar ou de como me fazia tomar nas coxas e gozava em mim depois. Eu não sei porque nunca fiz nada, ou porque nunca contei pros meus pais. Foi mais ou menos nessa época também que eu comecei a me masturbar, e isso só piorava as coisas, porque, se por um lado eu gostava das sensações físicas que sentia, por outro era extremamente errado que eu experimentasse aquilo (era como eu me sentia). Lembro que um dia escrevi no meu diário algo como "sou uma pessoa má, sou uma pessoa má por foder com o Xxxxxxxx". Foder. Que criança de 9/10 anos de idade é obrigada a saber o peso dessa palavra desde cedo? Foder é diferente de fazer amor, é diferente de sexo, é diferente de transar. Foder é mais pesado, é mais agressivo, foder não me parece adequado no vocabulário de uma menina de 10 anos. Não que seja errado que ela use essa palavra, mas porque é uma coisa muito além as compreensão de uma criança.
A pior parte é que eu sentia prazer quando ele me chupava. E por muitos e muitos anos depois disso eu sentia que era minha culpa gostar disso, que eu não tinha esse direito e que eu era uma pessoa má, suja, errada, incapaz de ser pura, boa, benevolente ou de um dia merecer o amor sincero de um cara.
Ah, detalhe, além de tudo isso, os dois ainda praticavam uma espécie de tortura psicológica comigo. O cara dizia que um dia comeria a minha mãe - e dava a entender que poderia fazer isso a força, se fosse preciso. E que tiraria meu "cabaço"(virgindade), como ele dizia em sua violência. E ela gostava de dizer que meu pai usava drogas, que ele dava em cima das moças que trabalhavam em casa, que ele tinha um filho fora do casamento… Uma vez meu pai percebeu minha tristeza e pediu pra conversar comigo a sós, e ela disse que eu seu contasse pra ele o que tava acontecendo, ele faria a mesma coisa comigo. Meu pai queria me ajudar e ela me fez ter medo dele… Quando fui crescendo, fui percebendo melhor o que eles faziam comigo e decidi que não queria mais que isso acontecesse. Foi quando eu comecei a reagir. Se ela deixava ele entrar em casa e ele vinha pra cima de mim, eu gritava ou jogava almofadas nele. EU NÃO AGUENTAVA MAIS.
Um dia, não sei o que a moça fez de errado em casa, mas ela foi despedida. Aí eu já me sentia segura em casa. Mas não saia de lá. Não brincava com outras meninas do prédio, não gostava de ter que ir comprar pão na esquina. Ele sempre dava um jeito de me encontrar pelos corredores e me abraçar ou tentar me beijar. Sempre que eu tinha que sair de casa, e estava sozinha, eu corria pelo prédio, com medo. Só contei pra alguém da família o que tinha acontecido quando tinha por volta dos 12/13 anos. Foi pra minha tia (que também é minha madrinha), e ela que pediu minha permissão pra contar sobre isso pros meus pais. Eu lembro que a minha mãe me apertou como não fazia antes, me abraçou bem apertado, e ela não conseguia falar nada e chorava muito, muito mesmo. Aquele choro sofrido, que sai bem de dentro da gente e parece que machuca mais do que a dor em si, você sabe como é? Eu me senti muito obrigada a ser forte, fingir que não era nada e que eu tava bem, porque ela não tava, e isso era claro pra mim, sabe? Meu pai ficou muito mal também, ele queria machucar aquele cara fisicamente. Eu nunca, em toda a minha vida, tinha visto meu pai chorar.
Até os meus dezessete anos de idade eu vivi uma farsa. Tirava boas notas, tinha amigos, mas era retraída. Fiz terapia dos 12 aos 15, mas não aprendi nada ali, porque eu fingia estar bem e não contava meus medos e traumas pra ninguém, nem pra minha psicóloga. Eu tinha que ser forte. E eu tinha muito medo de não conseguir. Não me aproximava de garotos, e vivia num mundo completamente irreal, minha criação. Gostava de imaginar que a minha pele era bem branca e eu era loira e delicada.
Quando me interessava por garotos, não conseguia me aproximar deles de jeito nenhum, e nunca fui alvo de cantadas. Eu era a amiga feia do grupo, sabe? Eu me sentia extremamente feia, e eu achava que por ter manchas no corpo, por ser gordinha, por ter a sobrancelha grossa, enfim, por não ser a típica menininha delicada, eu não merecia o amor/atenção/afeto de ninguém da minha idade. Eu sentia que só merecia a atenção de caras mais velhos e nojentos, como o cara que abusou de mim. Eu não conseguia andar na rua sozinha, nem dirigir a palavra a pessoas que não faziam parte da minha zona de conforto. Acho que perdi muita coisa nesse tempo. Meu primeiro beijo foi aos quinze anos. Minha primeira relação sexual foi aos 20.
No ano do convênio minha farsa começou a ruir. Era o ano em que as pessoas começavam a decidir o que queriam pro resto de suas vidas, e se eu só vivia em um mundo de faz de contas e evitava mergulhar em mim, como saber quem eu era ou o que queria? Voltei a ficar retraída, ia pra aula mas não prestava atenção em nada e não conversava tanto com meus amigos, passava a aula inteira escrevendo coisas sobre minhas tristezas num diário. Também usava a internet como fuga, amigos virtuais e jogos de rpg tomavam meu tempo. Isso me trazia muitos problemas com meu pai, que não entendia porque eu era assim. Foi nesse ano que voltei à terapia com a mesma psicóloga que tinha me atendido antes. (E foi por volta dessa época que minha mãe finalmente começou a se respeitar como indivíduo e sair da bolha de submissão que ela vivia. Hoje em dia ela é minha melhor amiga, e é a pessoa que eu mais amo e respeito em todo o universo. Eu sinto tanta pena dela por ter perdido muito tempo da vida sem fazer as pazes consigo mesma :/)
Entrei em duas faculdades em 2010, e continuava me sentindo triste e sem perspectiva. Tive que largar a terapia de novo, por conta do horário corrido - e também porque, sinceramente, tava de saco cheio dessa médica que nunca percebeu que eu fazia uma capa de firme, mas me encontrava completamente perdida em sentimentos ruins (tudo bem, até então nem eu sabia disso, mas não era esse o papel dela?). Por essa época comecei a largar a fantasia, e comecei a mergulhar em mim, de verdade, me conhecer melhor. Foi quando eu comecei a revisitar aquelas coisas que aconteceram na minha infância e que me magoavam tanto. Esse processo levou um tempo, e foi acompanhado de muito choro de dor na madrugada, que às vezes me impedia de dormir decentemente; de morder os braços e me arranhar; de dar socos no estômago embaixo do chuveiro; e a intensificação de uma coisa que eu já fazia desde a época da escola: arranhar e cutucar/estourar umas bolinhas que apareciam nas minhas costas, braços e pernas e que são decorrentes de um processo alérgico, genético. Tenho as manchas até hoje.
Inclusive, essas mesmas manchas eram causa constante de sofrimento, porque eu achava que nenhum cara gostava de mim por essas coisas que estavam erradas e eram feias em mim, como as manchas no meu rosto e nos meus braços. Cheguei a ficar com mais um cara na época de escola, mas foi completamente broxante, evitava as ligações dele, e me sentia mal por ter ficado com ele.
Constantemente me comparava às minhas amigas, e as achava muito mais bonitas, legais, divertidas e interessantes do que eu. Eu queria ser como elas, ou melhor, queria ser qualquer outra pessoa, menos eu. Mais ou menos em outubro de 2011 eu finalmente contei TUDO pra minha mãe. Como eu me sentia, como eu tinha certeza de que jamais conseguiria ser feliz no mundo real, de que eu não era capaz de arranjar um emprego, de ter uma família, de como eu me sentia vazia, de como eu pensava em me matar quase todos os dias, de como eu sentia que vivia na iminência de uma coisa muito ruim acontecer comigo a qualquer instante. De como nada, absolutamente nada, me dava prazer - exceto a masturbação, mas eu continuava a me sentir vazia por fazer isso periodicamente. Aí a gente procurou ajuda médica, fizemos exames, e por volta de novembro ou dezembro eu comecei a tomar medicação antidepressiva.
Em dezembro, meu amigo I. veio pra cá de novo, e no primeiro dia que a gente se viu eu tomei a iniciativa de beijar ele, mas fiz isso por achar que eu podia, mas não por realmente querer. Ainda era estranho ficar com alguém, e eu tinha certeza de que não ia dar certo, e que eu não sabia como, nem conseguiria ficar com uma pessoa firme. Eu não sei te dizer o que ele tem, ou como funciona isso, mas eu tava enganada. A gente acabou ficando e ficando, e eu me sentia cada vez mais confortável com ele. Cheguei a contar por alto o que tinha acontecido comigo quando eu era menor, e a gente tava deitado na cama e ele me abraçou bem forte e deixou que eu chorasse no ombro dele, e isso teve um significado especial pra mim. Eu senti que naquele dia esse carinha quebrou uma barreira que tinha em mim e que me impedia de confiar nas pessoas e de me abrir emocionalmente. A gente não chegou a transar, mas eu redescobri meu corpo por causa dele, pela visão dele. Os peitos que antes eram muito grandes e feios e caídos, viraram peitos bonitos e macios. O corpo que antes era OBESO virou um corpo fofo, bom de apertar (e que eu aperto mesmo, porque eu gosto de me permitir brincar comigo mesma e me conhecer a fundo). Mas eu não superei minha buceta. Eu acho minha buceta completamente feia, e já fiz muita pesquisa de fotos na internet só pra me torturar, e eu juro que isso às vezes me faz chorar o mesmo choro sofrido que eu já comentei antes; eu chego no ponto de realmente sofrer por causa disso.
Ainda assim, acho que tô num momento bom, o melhor momento que já estive desde meus 8 anos de idade. Eu nunca mais fui feliz de verdade depois disso, mas agora to tentando ser a todo o custo. E eu quero gostar de mim por inteira. Às vezes tenho recaídas assombrosas, me dá vontade de mandar todo mundo que tá perto de mim ir se foder, me dá vontade de ficar dias sem tomar banho, de não sair de casa, de não comer, de dormir o dia todo. Mas o remédio me ajuda muito. Continuo sem sair pras festas com meus amigos, mas acho que nesse semestre vou me concentrar em tentar sair e relaxar de verdade.
Enquanto escrevia esse relato, lembrei de coisas, chorei, sofri, mas lembrei também que eu sou forte, muito forte, e uma pessoa boa de verdade. E isso, essa redenção que eu venho me proporcionando desde 2011, não tem preço. Essa é a melhor coisa que eu posso fazer por mim. "

M.

RELATO N° 45

45º Relato.

N. Você não tem culpa de nada! Sinta-se acolhida!

"O Escort cinza causava nela um sentimento estranho que ela não sabia se tinha nome, mas sentia no estômago e tinha algo a ver com as viroses. Como se a comida fosse escapar pela boca. O carro tinha um cheiro estranho, de velho, e de produtos para conservar o estofado antigo. Era um cheiro de segredo e os segredos não cheiravam bem para uma garotinha de cinco anos. E nem depois, para uma garota de 15, 16, 17, 18. Quando o avô vendeu o carro, ela sentiu uma felicidade de Brasil campeão da Copa do Mundo. Aquela felicidade de fogos de artifício e tirinhas de plástico amarelas e verdes chacoalhado no alto das ruas de Pirituba entre as fiações e as pipas perdidas.

O que ela não entendia, aos cinco, é como podia se sentir mal por ter esse cantinho que era dela, só dela e do primo, que era seu melhor amigo. Ele era forte para um garoto de oito anos, alto e carregava um ar de mistério que fazia ela lembrar daqueles filmes com o Morgan Freeman ou com o Anthony Hopkins que a mãe dela adorava ver e sempre se gabava de descobrir o assassino antes do filme revelar o final.

O que ela também não entendia, era porque ele era tão triste. Ele tinha um pai e uma mãe, dois irmãos para brincar, o Lego mais completo do mundo, que ele tinha ganhado do Papai Noel que visitava a família todo ano e um cachorro, coisa que a mãe dela nunca deixava ela ter, pois tinha medo do animal. Ela tinha querido tanto um cachorro. A mãe, contudo, havia lhe contado uma história horrorosa sobre quando um cão grande quase a matou quando ela mesma era criança. Depois disso, ela interpretou os cachorros como coisas das quais devia ter medo, principalmente o do primo, que era enorme, dentuço e com as orelhas de pé que davam sempre a impressão que ele estava te ouvindo pra te caçar.

Ela também tinha uma certa inveja dele porque o avó amava ele muito mais do que amava a ela. Ele era carinhoso com os dois, claro, mas isso só tornava a preferência ainda mais dolorosa. Quando o vovô lhe contava histórias de bichos e acariciava sua cabecinha de cabelos ralos, nunca era igual como com ele.

O vovô era uma figura mítica, uma espécie de herói como o Morgan Freeman. Ele tinha muitos princípios, tinha trabalhado muito na vida, mudando de lugar em lugar para construir todo tipo de coisa. Ela sentia que ele tinha construído São Paulo inteira! Uma vez, ele tinha perdido um pé quando um elevador despencou nele em uma obra e conseguiu grudar ele na perna e botar pra funcionar de novo. Ela pensava que isso só podia ser um tipo de superpoder. Outro superpoder que ele tinha era o de imitar o som dos animais. Ele costumava assustar a vó na pia, imitando um gato e raspando algo na perna dela. Ela saltava em cima do azulejo rosa e depois dava nele uns tapinhas cheios de amor.

Era bom que o primo morava ali, sempre perto deles. A casa dele ficava embaixo da dos avós dos dois e ele podia subir e comer mentiras e polenta com frango sempre que quisesse. Ela só podia fazer isso de final de semana, quando o pai a levava para almoçar ali. Nesses dias, o primo revelava o mundo para ela. Levava ela para o galinheiro e mostrava onde as galinhas punham ovos em segredo. Ensinava ela a construir cabanas de madeira velha que levavam até pregos a marteladas. Deixava ela jogar taco e andar de carrinho de rolimã e a defendia quando os meninos da rua diziam que aquilo tudo era coisa de menino. Ele retrucava: "É coisa de quem quiser fazer!"

Todo ano ele guardava economias para comprar um presente para ela no Natal. Isso fazia ela se sentir muito muito especial. Ele também lhe contava segredos, como revelar que achava que a vizinha estava ficando muito bonita desde que lhe começaram a crescer peitinhos.

Tá certo que ele batia nela sem razão de vez em quando, mas ela achava que ele fazia isso para esquecer que era triste sem motivo. Teve uma vez que ele arremessou um tronco de madeira mais grosso que os tacos de baisebol na cabeça dela, só porque ela deixou uma das cabanas dos dois despencar. Outra vez, ele encheu ela de socos porque os pais dela estavam comprando uma casa com piscina e a casa dele nem dele não era. Mas, coitado, ele era triste.

Ela amava ele como quem sente que deve algo a um protetor. Ele tinha ensinado quase tudo a ela, a protegido, ensinado a ela que ela podia fazer coisas de menino. Ele tinha mostrado que ela era digna de segredos.

Ela não gostava de todos os segredos, no entanto. Principalmente do segredo do escort cinza. O vovô tinha ido dar aquele cochilo de domingo após a muqueca e a vovó estava ocupada lavando a louça quando ele, furtivamente, pegou a chave do carro. Convidou-a para brincar no escort, disse que eles iam fingir que iriam numa viagem. Quando eles entraram no veículo, ela perguntou quem ia ficar no volante e ele respondeu "ninguém".

A brincadeira ficou esquisita quando ele disse que ela precisava tirar a roupa, toda, para participar do faz-de-conta que ele estava propondo. Ela seguiu as ordens, afinal, ele era quase três anos mais velho e conhecia mais jogos e filmes do que ela. Quando ele deitou em cima dela, nu, ela começou a chorar. Ele perguntou porque e ela só respondeu que lembra que o padre tinha dito uma vez na missa que só os casados deviam se deitar pelados. Ele disse que não tinha problema, porque ela era menina, ele menino, e ele tinha visto num filme que era assim que se fazia.

Ela disse que não queria brincar mais, que ia embora perguntar para o vovô se aquilo era verdade. Ele empurrou a cabeça dela contra o chão, disse que ela ia ficar ali e brincar, senão ele ia jogar o cachorro em cima dela. Fez uns movimentos que ela não entendeu - ele parecia não entender muito bem tampouco. Ela ficou sentindo o peso do inferno no peito. Tinha certeza que o diabo, com seu garfo gigante, ia buscá-la de noite. E, quando o choro dela tornou a brincadeira insuportável, ele a fez se vestir e disse que aquilo era legal, porque agora eles tinham outro segredo.

Nunca mais ela quis entrar naquele carro. Ela sonhava com aquilo tudo e achava que tinha feito algo errado. Ele era muito doce e fiel amigo, afinal, se ela era uma chorona, a culpa não era dele.

Continuaram melhores amigos até a puberdade chegar. Quanto mais os seios dela cresciam e o quadril alargava, mais ele se afastava, mais mantinha segredos e até chegava ao desatino de afirmar que ela não era convidada a alguns jogos de videogame "de menino". De repente, ser menino tinha ficado muito importante para ele. E ser forte. E parecer feliz, apesar dela sempre saber que, no fundo, ele continuava muito triste."
N.

Ela deixou ele se afastar, com pesar. Ela perdia o melhor amigo, afinal, isso não era triste? Tá certo que ela não lembrava mais, quase nunca, da história do escort, que ela guardou como o segredo que pareceu nunca conhecer.

Quando os dois já eram adultos, o vovô teve uma doença grave. Ela o acompanhou no hospital como quem mendiga o amor dele pelos últimos instantes, feliz em ser amada mesmo sem ser a favorita. Ela já havia lido muitas coisas, era inteligente, estava em uma universidade respeitada. O primo não era ninguém, tinha ficado feio. A única coisa que não mudou era que ela era feliz e ele triste, ambos sem motivo.

Ela já sabia que mais de um terço dos pedófilos eram, eles também, menores de idade. Ela sabia que o primo a havia estuprado. Ela sabia, mas não contava para si mesma. Era segredo.

No dia em que o vovô ia morrer, ele quis ver a família. Cada um subiu ao quarto dele, teve seu tempo privado. O primo viajou até a cidade do interior onde ficava o hospital, mas não subiu. Não conseguiu.

Foi o dia em que ela entendeu. Ele se culpava. E achava que o avô, única pessoa que o tinha amado e ensinado o certo do errado, não merecia olhar para o que ele tinha se tornado. Não antes de morrer.

E ela ficou triste. Ficou triste pelo avô e até por ele. Ficou triste e entendeu porque ele sempre tinha sido taciturno. Enquanto ela temia nunca ser a favorita do avô, ele tinha recebido um favoritismo que nunca mereceu. E o avó, graças a Deus, morreu sem nunca saber.

RELATO N° 44

44º Relato

T. Você sabe o quanto te adoro, sinta-se acolhida, você é linda, forte e emana luz pra quem a conhece! Você não está sozinha! 

"Eu estava lendo o depoimento da sua mãe e isso mexeu muuuito e fundo dentro de mim,não sabia q vc tbm tinha passado por tudo isso
E mesmo assim hoje luta e da força a outras que estão sofrendo
(...)
Obrigada por nos dar apoio e voz
E depois de ler tantos depoimentos, finalmente decidi dar o meu.
É longo, e eu espero que vc tenha paciência pra ler
Por favor
Gostaria de ficar anônima tudo bem?
Quando eu ainda era bem pequena e n tinha idéia do que era maldade, morava com minha avó num cidade pequena, minha melhor amiga 1 ano mais nova morava numa casa em frente a minha, com a mãe e os avós...
Eu sempre passava a tarde brincando com ela, sua mãe ia dar aula em outra cidade e ficava-mos com seu avô pois sua avó tinha sofrido derrame e vivia sem falar nem se mecher... apenas olhava...
Pra mim era tudo normal, ate notar q minha amiga nunca queria ficar dentro de casa com ele quando a mãe saía.
Mas um dia assim q cheguei lá começou a chover
Vendo tv... minha amiga estava muito calada... seu avô fechou todas as portas e janelas... dizendo: estava molhando... melhor esperar passar la no quarto.
Nos levou pro quarto, mas minha amiga correu e se escondeu debaixo da mesa...
Eu n consegui, n entendia o por quê... mas ele me assustava...
Ele me pôs sobre a cama e começou a me mostrar objetos antigos... lembro de um antigo vidro de perfume com burrifador...
Enquanto me mostrava, passava a mão em minha pernas... eu comecei a perceber e fiquei estática
Ele me alisava e sorria
Me deitou na cama, subiu em cima das minhas pernas r levantou meu vestido. Eu tentei dizer q tinha q ir embora, que minha vó ia me procurar...
Ele riu e disse: ela nem sabe que vc está aqui... esta tudo fechado.
Gelei.. n sabia oq tava acontecendo, mas eu no alto dos meus 6 anos de idade perguntei: pq vc faz isso?
Ele- pq eu quero vc! É isso q um homem e uma mulher fazem...
Eu perguntei: porque vc n faz isso com sua mulher?
( a senhora, estava no quarto, sem poder se mover, assistindo tudo.)

Ele me ignorou a partir daí
Tirou minha cacinha
Me tocou
Tentou me penetrar mas n conseguiu, ele se masturbou e gozou sobre mim, depois me virou de costas e me violentou.
Depois q acabou saiu pra fumar, eu saí com a ajuda da minha amiga de 5 anos escondida pelo quintal.
Tenho certeza q ele tmbm abusou dela, mas ninguém nunca soube
Eu nunca mais fui pra lá,ele disse pra minha avó q eu roubei dinheiro de lá e depois de negar tudo, eu apanhei muito.
Mas n tinha coragem de contar,peguei pavor de homens de idade
Alguns anos depois com 8 pra 9 anos, meu primo mais velho, ficou passando a mão em mim, enquanto eu fingia que dormia por puro medo.
E muitas outras vezes ele voltou a fazer sem q ninguém nota-se, durante o dia ele era super gentil na frente da familia, longe deles ele batia e ameaçava.
Nunca contei ninguém.
Aos 10 anos fui mora com minha mãe em outro estado, achei q tudo ia ficar bem apesar dos meus traumas, Ilusão...
Sofri abusos do meu padrasto, do filho dele
E quando contei q no meio da noite ele entrava no quarto q eu dividia com minha irmã pra se masturbar,ela achava q era ciúme ou implicancia.
Um dia dormimos numa sala pq a casa n tinha 2 quartos,2 pre adolescentes com 12 e 13 anos e 2 homens de 19 e 21 anos
Tentaram abusar da gente eu n deixei !
Eles me machucaram.
Eu achei q n era mais "pura" e ninguem ia querer casar comigo pq eu era suja.
Uma prostituta.
Assim q meu padrasto me chamava...
Sofri muitos abusos de vários tipos... ate ser expulsa de casa por n obedecer meu "pai" .
Minha mãe n fez nada, pq pra ela eu era a errada, eu que tinha provocado tudo. Se eu for contar 1 a 1 este relato n vai ter fim.
Eu me odiei..
Tentei suicidio...
Morei na rua...
Sofri muito
E muitas destas feridas ainda estão abertas ,tive pessoas q me deram a mão,meu marido foi uma delas. Ele me tirou do fundo do poço,me amou
e me mostrou q com amor podemos reconstruir oq perdemos
Hj tenho uma filha linda e a amo muito, só quero protege-la
E n deixar ela passar por nada do q eu passei."

T.

RELATO N° 43

43º Relato

M. Sinta-se abraçada! Te desejo muito amor! 

"Talvez o meu caso não tenha sido tão grave como muitos aqui relatados, mas foi suficiente para me causar grandes feridas.
Quando eu tinha quase 6 anos minha irmã mais nova nasceu. O padrinho foi um irmão da minha mãe, meu tio. Com o nascimento dela ele nos visitava com bastante frequência, sempre levando presentes e sempre muito atencioso conosco. Eu sempre fui uma criança muito inocente, sempre fui criança mesmo, daquelas q vivia para brincar, que ficava feliz quando tava brincando. Meu tio em suas visitas me chamava, lembro bem do local da casa em que ele me abraçava e começava a passar a mão no meu corpo todo. Eu odiava aquilo e não fazia nem ideia do que estava acontecendo, com aquela idade e no meu mundinho de brincadeiras sexo era uma coisa q eu não tinha nem ideia do que seria. Eu só sabia que odiava aquilo, eu tentava sair mais ele obviamente era mais forte que eu e me mantinha junto dele. Ele faleceu quando eu tinha 16 anos. Esqueci aquilo tudo pq eu realmente não sabia o q era, mas criei um medo muito grande de homens, cresci achando que se chegasse perto de um homem ele poderia fazer o que eu não gostaria sem eu poder dar minha opinião. Casei com um homem maravilhoso, casei virgem e só perdi a virgindade uns 20 dias depois do casamento, tamanho o meu medo, um medo que carreguei sozinha no ombro por muito tempo. Depois que casei, bom tempo depois, veio à minha mente o que ele fazia comigo, não sei pq mas isso ficou esquecido, acho q só depois me toquei o q era isso tudo, e tive coragem de falar com minha mãe sobre o que acontecia. Aí fiquei sabendo que ele também fazia isso com minha tia, sua irmã mais nova. Hoje superei tudo isso e cuido muito para que não aconteça o mesmo com meus filhos."

M.

RELATO N° 42

42º Relato

X. Se você se sentia constrangida, se ela te obrigava a isso, mesmo que você sentisse algo bom no toque, se a ação te deixava com mal estar, sim.. é estupro. Você não é culpada e não está sozinha. Não se sinta nojenta, você estava numa idade onde é normal se descobrir, mas a "Paula", tendo o dobro da tua idade, não deveria ter feito isso.

"Não sei ao certo como contar isso,não sei se foi estupro,não sei se foi abuso,só sei que me marcou e até hoje me sinto culpada.Nunca contei para ninguém,queria saber se foi estupro ou não,queria acabar com essa dúvida que me atormenta a anos.
Minha mãe é dermatologista e trabalhava em Campo Grande-RJ quando eu tinha 5-9 anos (acredito q era essa faixa etária).Depois do colégio eu ia com ela pro trabalho,porque ela não tinha com quem me deixar.Lá,enquanto minha mãe fazia as consultas eu brincava com uma menina,a Paula(nome fictício),filha do dono da clínica. A gente brincava de boneca,de patins... E as vezes ela pedia pra ir no banheiro da clínica comigo.Ela nos trancava.Ela tirava o meus shorts,ela me sentava na privada e depois sentava na minha frente. Ela se roçava em mim,ela se tocava.Ela ME tocava,e eu,ingenuamente,gostava,sim,ela tocava na minha vagina,e eu sentia a sensação boa daquilo.Eu não tinha culpa,não sou culpada pelas sensações.Ela pedia para eu não contar nada a ninguém,eu obedeci(até hoje).Quando minha mãe percebia q a gente estava trancada no banheiro, ela batia na porta,ela a obrigava a abrir a porta e depois me perguntava se a "Paula" tinha feito algo.Sempre neguei,até hoje ela não sabe o q acontecia.Até hoje me sinto culpada em ter gostado em algumas vezes,até hoje não sei se era minha culpa,até hoje eu me sinto nojenta. Ela tinha 14 anos,eu tinha 7."

X.

RELATO N° 41

41º Relato

X. Você não foi covarde, você não tem culpa. Você não está sozinha, és uma mulher guerreira e forte! conte conosco!

"Bom, com tantos relatos lidos, resolvi contar tambem... Quando tinha 7/8 anos começou a tortura, tinha uma vizinha que é minha amiga de infancia até hoje. Ia na casa dela todos os dias, dormia la, ate que certo dia percebi que o pai dela me olhava estranho, e começou a falar mais comigo, querendo ser "amigo". Ate que um dia eu estava na sala da casa dela e ela foi tomar banho e ele sentou do meu lado, começou a passar a mão na minha mão, na minha perna, na virilha, e tentou me beijar.. Nao intendia o que estava acontecendo ali, qual era a intençao dele. Ele me disse: vc nao pode falar isso pra ninguem, eles vao te bater e te por de castigo. Eu me lembro de ter ficado insegura quanto aquilo e pensava se deveria falar pra minha mae, mas fiquei com medo e não disse nada. Mal sabia eu que era so o começo... A partir dai sempre que eu ficava la sozinha ele vinha pra cima de mim, beijava passava a mao, colocava minha mao no penis dele. Quando falava que ia embora ele me dizia que se eu fosse ele iria contar pra minha mae e ela iria me abandonar. Isso durou uns 2 anos... Lembro bem de uma das vezes que ele tentou penetração que disse: "calma, vai doer só um pouquinho, depois vc vai gostar, vc vai ver como é bom"seguido de um breve comentário " nossa, ja ta nascendo pelinhos, tem que aprender a depilar hein(risos)"... Quando me dei conta do que estava realmente acontecendo axo q tinha uns 10/11 anos... Vi que era errado, que era nojento, eu nao queria mais, ai parei de ir na casa dela. Acho que por uns 6 meses, sempre que minha mae perguntava eu inventava alguma desculpa. Ate brigava com a minha amiga so pra ter motivo pra nao ir la. Contei isso para o meu marido e ele mudou comigo, ele sempre diz que nao, mas parece que ele pensa que sou uma vagabunda, que fiz por que eu quis.. Ja ate me falou uma vez (brigando,bêbado) que eu devia ter gostado. Ateh que em uma das vezes que bebemos e fomos para o motel ele ficava me xingando, queria sexo anal a força e dizia" eh disso que vc gosta?!" . Hoje em dia ele nao faz mais isso... Pediu perdao pelo que fez, e o pai da minha amiga ainda fica se insinuando pra mim quando eu vou la. Ainda faz pior... Fica olhando pra minha filha (que tem 6 meses) e lambendo os lábios... Me provocando tipo " ela que me aguarde". Se ele um dia chegar perto dela acho que eu mato. Nao quero que ela passe pelo que passei. Ate hoje com 20 anos eu me sinto culpada, penso que poderia ter feito algo e nao fiz pq tive medo, pq fui covarde."

X. 20 anos

RELATO N° 40

40º relato

N. sua mãe foi uma guerreira ! Obrigada pela confiança!

" Minha mãe veio para São Paulo com apenas 14 anos de idade para trabalhar como doméstica. Arrumou um emprego em uma casa para dormir, só tinha visto a dona da casa, e não o donO. Na primeira noite dormindo lá, se sentindo sozinha, desampara, com medo, insegura (também por ser apartamento, que não estava acostumada, pois era do interior). Percebeu a entrada de um estranho no quarto, ela nem se mexeu fingiu estar dormindo, logo sentiu um homem alisar o bumbum dela, e ela gelou, ficou desesperada, mas continuou fingindo. Eram apenas 14 anos, era uma mocinha mega recatada. No outro dia disse que queria ir embora e não queria trabalhar lá. Não falou nada para a dona da casa, mas ouviu da mesma: "Assim você não vai fixar em lugar nenhum" ela não sabia o traste de marido que tinha dentro de casa. "E se eu contasse pra alguém; quem ia acreditar em mim? Eu estava na casa dos outros, onde minha palavra não era grande coisa." Isso é coisa que não dá para esquecer! Ninguém merece ser estuprada, assediada... Minha mãe não chegou a ver o rosto dele, nunca mais apareceu lá, mas também nunca esqueceu o ocorrido!"

N.D.

RELATO N° 39

39º Relato

J. Muito amor pra sua família. Que o caminho de vcs seja repleto de alegrias daqui pra frente.

"Oi Laura estou aqui pra dar. o meu relato....o q eu indireta ou diretamente passei com meu Sobrinho.....
Bom num sábado trabalhei o dia td cheguei na casa da minha mãe de tardezinha perguntei sobre ele (M inicial do nome do meu sobrinho) minha irmã disse q ele estava na casa da vizinha, passado algum tempo minha irmã foi chama-lo pra jantar.
Ela então chegou muito nervosa e disse q o vizinho estava com o meu sobrinho (M) num canto escuro e assim q viu minha irmã disfarçou e Ela então estranhou, chegou em casa brava e gritando ele então não falou nada
Como eu tenho várias conversas com ele (M ) ele confia muito em mim....ele tinha médico marcado pra o dia 06/11/13 e o caso ocorrido foi dia 02/11/13 então eu perguntei pra ele se algo tinha acontecido. ..ele disse Não..
Então comecei a dizer q eu iria leva-lo no médico q já estava marcado e q se o fulano tivesse feito alguma coisa até msm chegado perto o médico iria me dizer....foi aí q ele começou a chorar e me contar. ...
O fulano q eh vizinho de frente tem 15 anos pegou meu sobrinho de 8 aninhos de idade e essas são as palavras do meu sobrinho.......
ELE ME PEGOU BEIJOU NA MINHA BOCA , PASSOU A MAO EM MIM , COLOCOU A BOCA NO MEU PIPI, TIROU MEU SHORT ME VIROU COLOCOU O PIPI DURO NO MEU BUMBUM EU FALEI Q TAVA DOENDO E ELE NAO PAROU ....ELE VIU Q NAO IA CONSEGUIR E PAROU.....TD VEZ Q EOE VINHA POR A BOCA DELE NA MINHA EU IA GRITAR E ELE TAMPAVA MINHA BOCA.........esse Laura foi o PIOR DIA DA MINHA VIDA...nunca chorei tanto me senti impotente, me senti um nada , um lixo por não poder ter livrado meu Príncipe daquele monstro. ...resumo contei pra minha mãe q estava no trabalho a noite ela não consegui trabalhar entrou em desespero. ..veio correndo pra casa foi tirar satisfação na casa do fulano a família dele falou q era mentira e ele riu na cara da minha mãe minha irmã mãe do M chegou momentos depois e ficou transtornada
depois ficamos sabendo q o fulano estava Sendo assistido por outros casos desses.,,,demos parte da delegacia mas como o fulano eh menos até agora não virou nada, .....no dia q levei o M pra fazer exame do corpo de delito eu queria me jogar na frente de um caminhão pra não deixar ele passar por isso. ....hj em dia o q sobrou pra ele foi medo, desespero e uma memória q ele como válvula de escape diz q esqueceu tudo passa por psicólogo e pra nos dá família dor, revolta e vontade de esganar o vagabundo.........."

J.

RELATO N° 38

38° relato- O relato de uma mãe. 

Mãe, eu te amo. Sei o quanto isso tudo mexeu conosco. Nos destruiu. Mas não matou nosso amor. 

" relato de uma mãe.......dia 14 de outubro de 2002, foi um dos dias mais triste de minha vida.Foi o dia que doeu cada poro de meu corpo, foi o dia que tive vontade de engolir minhas filhas para meu ventre e nunca mais tira-las de la.FOI UM MOMENTO DE DOR, DESESPERO, REVOLTA, E AMOR, MUITO AMOR NO MOMENTO QUE ALGUEM BATE NA PORTA, VC ABRE E TUA FILHA AOS PEDAÇOS, MAL CONSEGUINDO FALAR, E DIZ ASSIM, MÃE TO VIVA PRA TI. SÓ PENSAVA EM FICAR VIVA PRA TI MÃE.....DIFICIL ESCREVER, MUITO DIFICIL, estou buscando forças nem sei de onde, mas vamos la....
Preciso fazer minha parte como mãe, amiga e ser um pouco MÃE de todas vcs as quais acompanho os relatos.....peço como mãe que não condenem suas mães por não apoiarem ou cuida-las num momento desses, falo isso, porque sei o qto é dificil para uma mãe lidar com uma situação dessas, sei o qto custa caro dar a cara a tapa, o qto somos julgadas , culpadas, erradas, por algo que não fizemos. Só quem passa e sofre este tipo de agressão sabe que funciona assim .Minha filha foi violentada no ano de 2002, até hoje to a espera dos direitos humanos......, Enquanto que o marginal, alias, alguem que devido a boa conduta estava solto pelas ruas, aprontando, que segundo os direitos humanos lhe da o direito.....Tive duas escolhas, entrar espara na fila das vitimas com minha filha ou dar a cara a tapa para sociedade e ir a luta...optei pela segunda ...
Mesmo sendo ardua, dificil, criticada, doída, muito doída...uma dor inexplicavel.....é onde tento me colocar, no lugar das vitimas de violencia sexual....que se eu como mãe de uma menina violentada sentia uma dor tão grande, tão dolorida, dor..dor...dor....imagino vcs meninas, mulheres, crianças, idosos, que alias hoje sou cuidadora de idosos...
VOU PARAR POR AQUI... ESTA MEXENDO MUITO COM MINHAS FERIDAS ISSO TUDO......SOU MÃE SOFRO QUIETA, AS FERIDAS SÃO MINHAS PARA O RESTO DE MINHA VIDA......PEÇO DE CORAÇÃO A TODAS AS MÃES QUE NUNCA ABANDONEM SEUS FILHOS NUM MOMENTO DESSES E ACREDITEM QDO UM FILHO OU FILHA QUERER LHE CONTAR ALGO QUE ESTEJA ACONTECENDO E NÃO AS CULPEM POR ISSO.....SOU MÃE DE Laura Muller Sagrilo, vitima de violencia sexual dia 14 de outubro de 2002 em santa maria RS

RELATO N° 37

37° Relato
X, vc faz parte de momentos lindos da minha vida! Saudade! 

" Amiga não coloque minhas iniciais...coloque anônima

Foi quando eu tinha 5 anos, mesmo sendo tão pequena me lembro como se fosse hoje o dia em que um primo, na época com 17 anos, posou na minha casa e tentou me estuprar. Naquela noite eu estava dormindo na parte de baixo do beliche, ele saiu da sala foi para o quarto e quando acordei, eu estava sem a bermudinha do pijama ele estava em cima de mim, tapando minha boca com uma das mãos para que eu não falasse ou gritasse, e com a outra mão tentava a penetração, eu tão criança, não sabia o que estava acontecendo, não tinha noção, só pensava na dor que eu estava sentindo por conta das tentativas de penetração dele; depois de um tempo tentando, algo aconteceu e meu padrasto levantou para ir ao banheiro, foi aí que meu “primo” parou, esperou meu padrasto voltar para o quarto e voltou pra sala e graças ao meu bom Deus ele não conseguiu a penetração. No outro dia quando eu acordei, ele já não estava mais lá, e com a inocência que toda criança tem, comentei o ocorrido com a minha mãe, ela ficou furiosa na hora e só ligou para minha tia, talvez ela no desespero também não soubesse muito o que fazer. Bom, fiquei muitos anos sem ver ele, até comentei o fato com meus irmãos e com uma prima que é irmã dele, mas todos ouviram e não deram muito crédito, afinal eu só tinha 5 anos. E com o passar do tempo tinha que ter o desprazer de ver ele em todas as festinhas de aniversário dos filhos da minha prima, e ainda por cima ser educada, porque se não fosse, a família me cobrava por tê-lo destratado. O que mais me dói é que na minha infância aconteceram mais vezes esse tipo de abuso, amigos do meu irmão me tocando, “amiguinhos” mais velhos também me tocando e eu com medo de falar para as pessoas porque eu era criança e sentia que cada vez que eu falava, parecia para os adultos que eu estava mentindo, afinal, eu só tinha 5, 7, 8, 9 e 10 anos e que “verdades” uma criança com essa idade poderia falar. O tempo passou, tive muitos problemas psicológicos na minha adolescência por conta disso, pois me sentia como uma prostituta, que todos tivessem direito de passar a mão, mas nunca quis me sentir assim, quando cresci entendi que a culpada não era eu, me perguntava: que atitudes sensuais e com algum apelo sexual eu poderia ter tomado com 5, 7,8, 9 e 10 anos?? Era atraente eles me verem brincando de boneca, de Barbie?? Era atraente eles me verem brincando de corre-corre com minhas amiguinhas??? NÃOOOOO, não era, e hoje sei disso, sei que o que estava dentro de todos eles, era a crueldade de um prazer escroto, a crueldade de ter a coragem de tocar em uma criança. Graças a Deus hoje consegui superar isso, mas é inevitável lembrar essas fases na minha vida. Obrigada por me “ouvir” Laura, te amo muito, mesmo de longe"
X.

RELATO N° 36

36º Relato - O meu relato .

Eu tinha completado 15 anos havia apenas uma semana, foi no dia 14 de outubro de 2002, uma segunda-feira,feriadão escolar pelo dia do professor que seria na terça, dia 15. Não tivemos aula na segunda e alguns amigos se reuniram na minha casa, jogamos carta, comemos brigadeiro na panela... 
Minhas aulas era a tarde e de terça a quinta eu fazia um cursinho a noite. Porem,devido ao feriado, não haveria aula na terça no cursinho e o professor de química marcou aula para segunda... eu sempre amei estudar, sempre fui muito dedicada, mas sem pre fui péssima em química.
Meus amigos foram embora e eu me preparei para ir na aula de química.
Uma amiga me convidou pra matar aula, eu topei... mas quando passamos pelo ponto de ônibus a nerdice falou mais alto e resolvi ir.
Nunca havia pego ônibus da minha casa pro cursinho, mas sabia que na frente do ponto eu pegava ônibus do cursinho pra casa, havia outro ponto, onde eu devia descer.
Chegando perto, dei sinal pra descer, mas havia um carro parado no ponto de ônibus, o motorista não parou e me deixou no ponto seguinte, no final da rua, escura e conhecidamente perigosa. Era próximo das 19h. Desci e vi um homem sentado nas escadas de entrada de um sobrado da esquina. Segui meu caminho de volta pro cursinho, quando ele me segurou pelo braço, me obrigando a vira e calçando uma faca na minha barriga. Foi tudo muito rápido. Aquilo que falam de passar um filme na sua frente, é verdade. em segundos pensei centenas de coisas. Na hora que ele me segurou eu puxei o braço e falei " Me solta, tá louco???!!" e só depois senti a faca.
Ele foi me direcionando pela rua, me levando pra Gare da Viação Férrea, eu morava em Santa Maria-RS. A Gare,na época, era bem abandonada, apenas havia movimento lá, nos domingos de "brik".
Eu ofereci dinheiro, ofereci celular e ele apenas disse: "não quero nada de você"
Nesse momento eu sabia o que ele queria e pretendia fazer e eu só pensava em ficar viva.
Ele me fez atravessar as ruínas da Gare e ir para plataforma... foi quando vi 2 guardas e me enchi de esperança, mas aí a faca falou mais alto,o medo... passamos pelos guardas, o homem comigo cumprimentou-os com um aceno, por um momento achei que os 3 iriam fazer algo.. ele me levou pra uma parte sem iluminação, me obrigou a beijá-lo com a faca em meu pescoço, me mordeu.
Me levou mais longe da plataforma e me fez sentar... ficava me fazendo perguntas, e eu tentava fazê-lo me liberar. Ele ficava passando a faca em minhas pernas, braços, pescoço, alisava meu cabelo e meu rosto. Eu não chorava, mas tremia muito. Disse a ele que tinha aula e poderíamos nos encontrar no outro dia, foi uma tentativa de sair dali e chamar a polícia..tentei de tudo... tudo foi em vão. Mas no meio dessa conversa louca, ele largou a faca e não pegou mais.
Então me fez levantar e atravessar a plataforma, foi ai que vi uma chance.. joguei minha mochila nele pra distraí-lo e corri, corri e gritei por socorro, de repente ele me puxou pelos cabelos, cai e fui arrastada pelo concreto da plataforma.. me machuquei..e o socorro dos guardas não veio.
Ali me entreguei..sabia que seria morta.. sem a faca seria a pedradas, socos...sei lá... já estava ferida e nas mãos dele.
Ele me fez andar pelos trilhos do trem, até um matagal.. e lá me estuprou. 3 vezes. Me fez fazer sexo oral, vomitei.. ele gostou. Tentou me penetrar no sexo anal, não conseguiu. Me estuprou de novo.
Eu rezava enquanto ele fazia tudo. não chorava. Estava em choque, esperando que me matasse logo e que aquela tortura acabasse.
Acabou.
Ele fez eu me vestir e foi me levando de volta... eu esperando a morte vir.. não percebi que estava sangrando, que minha roupa estava rasgada, que haviam gravetos cravados em minhas pernas... não sentia dor. Estava em choque.
Passamos pelos guardas de novo, eles viram meu estado, mas nada fizeram. Ele me largou no ponto de ônibus e saiu. Eu só queria ir pra casa. Atravessei Santa Maria de ônibus e ninguém me ofereceu ajuda. Cheguei em casa e contei pra minha mãe. O desespero foi enorme, gritos, minha mãe me colocou no seu colo e tentava limpa o sangue. Uma vizinha, amiga nossa veio correndo e me viu. E nos ajudou. Eu só queria ir na delegacia, ainda não sentia dor e nem percebia meu ferimentos.
Pedi que ela tirasse a mãe de perto de mim e me levasse na polícia.
Fomos, Feito o BO, voltamos no local do crime, os guardas falaram que não interferiram pq acharam que era uma "briga de casal".. parti pra cima dele.
Depois fui encaminhada ao hospital, onde passei pelo meu primeiro exame ginecológico, com um homem.
Foi retirado sangue pra exames, recebi medicação e fui pra casa com a recomendação de tomar banho.. pois o exame de corpo de delito só seria realizado as 15h da tarde do outro dia...
No outro dia de manhã fui em 2 delegacia diferentes olhar fotos, nenhuma das 5.300 fotos que vi, era do cara.
A tarde, eu já estava dopada, babava, não tinha forças e dor tomava conta de mim... foi feito o exame de corpo de delito e a coleta do sêmen que estava em mim.
Fui para casa e tomei o melhor banho da minha vida.
Na quinta-feira fui chamada para fazer o reconhecimento. Era ele. Vi pelo vidro espelhado. foi preso. Foi condenado. E hoje já está solto, saiu por bom comportamento.
Eu fiquei dias sem conseguir andar direito, meu corpo ferido, muita dor, fraqueza, não dormia... Foram 2 anos com pesadelos.
Terminei o ano escolar, repeti 2 anos depois disso. Não queria mais estudar, não queria mais me cuidar... não queria mais viver. tentei tirar minha vida.Minha relação com minha mãe foi abalada. A Laura foi dividida entre antes e depois disso. Eu mudei. Tive depressão, sindrome do pânico. Engordei.
Tinha picos de extrema alegria e de extremo isolamento.
Superei com ajuda de amigxs e de minha família (mãe e irmã) ,recebi apoio de muitxs pessoas. Nunca me calei, nunca escondi. Superei, mas jamais esqueci.
Fui culpabilizada por amigxs e familiares com frases do tipo "ah tu tava de saia..." .
Me perguntaram se eu era virgem quando isso aconteceu, como se se ser ou não diminuísse a violência. Se não fosse, era "menos pior".
Quando recomecei minha vida sexual, fui reprimida.
Hoje vocês sabem.. luto pela autonomia da mulher, luto pela nossa liberdade sexual , pelo nosso corpo. Não aceito mais esse tipo de papo comigo e sou muito feliz assim, mesmo que muitas pessoas próximas achem isso condenável ou "impróprio".
Meu corpo, minhas regras.

Laura Muller Sagrilo