15º relato.
L. Sinta-se acolhida! Você nunca foi a culpada!
"Primeiro de tudo, eu queria agradecer a ti por ter criado um espaço para que vítimas pudessem se abrir sem se expor… acho que é importante poder ter quem te “escute” no processo de aceitação e entendimento do que aconteceu.
(1)
Quando eu tinha cinco ou seis anos, eu morava na mesma cidade que o resto da minha família, e eu costumava ir pra casa de uma tia durante os fins de semana. O marido dela tinha um sobrinho com seus 11, 12 anos que às vezes ia pra lá também.
Eu não me lembro do nome dele, mas me lembro do rosto. E, até então, a única coisa que eu conseguia associar a ele era o fato de que uma vez, quando eu tinha seis anos, a família toda fez uma viagem e eu fugi dele a viagem inteira.
A única coisa que me lembro dessa viagem era que, quando ele entrava em um cômodo, eu mudava pro próximo. Independente se tinha mais alguém conosco. Me lembro de ter ficado um dia no meu quarto ouvindo um CD e ele ter entrado pra pegar não-sei-o-que, e eu ter saído pra sala correndo, minha mãe ter visto e estranhado, e eu ter ficado sem palavras. Eu tinha sido atropelada nessa mesma cidade na visita anterior, então todos (inclusive eu) associaram com o fato de eu estar com medo de ser atropelada de novo, ou algo desse tipo.
Um pouco depois, eu e meus pais nos mudamos de cidade e eu nunca mais vi o rapaz, exceto em um natal que eu fui passar com meus tios (eu tinha 12 anos) e ele estava, e eu mais uma vez, me sentia desconfortável e incomodada perto dele. Ele não me reconheceu.
Esse ano eu descobri através de um sonho (que também pode ser uma lembrança) que ele abusou de mim. Nas diversas vezes que passamos os fins de semana juntos na minha tia, eu me lembrei bem vagamente de nós estarmos pelados, e dele me tocando. Eu não consigo me lembrar de nenhum detalhe, mas me lembro de um sofá-cama branco que minha tia tinha, e me lembro dele me colocando sentada no sofá (nua) e ele também nu, na minha frente. e a imagem se apaga, eu tento lembrar de mais coisas, tento associar as imagens, mas não consigo. Mas agora eu entendo o meu desconforto na presença dele, e mesmo não sabendo exatamente o que aconteceu, hoje eu sei que foi algo errado.
(2)
Enfim, lembra que eu disse que me mudei? Pois bem, na nova cidade, meus pais se reencontraram com amigos de infância que logicamente também tinham suas famílias - que viraram a nossa família. Eu tinha nove anos, e era a menina mais nova. Minhas “primas” eram 2 ou 3 anos mais velhas, e já estavam começando a se interessar por garotos. Todas eram lindas e magras e ágeis, e eu era a “sonsa”, a gordinha, a que não conseguia subir em uma árvore sem se machucar por ser a “filha única”, “mimada”. Essas associações são necessárias pra que se entenda o que aconteceu em um dia: um primo de segundo grau dessas garotas, que tinha a minha idade, decidiu que tinha uma “crush” em mim. E elas decidiram me dar uma “lição” pra que eu parasse de ser tão mole. Estávamos brincando na chácara em que uma delas morava, bem longe dos adultos que estavam na casa principal. Eu me lembro que todos os “primos” e “primas” estavam lá, e estávamos brincando de bola. Eu não me lembro exatamente como ou o que aconteceu (olha minha mente me protegendo de novo), mas eu sei que em algum momento, elas tiraram a bola da minha mão e jogaram pra dentro do banheiro. E disseram que se eu quisesse a bola, tinha que ir buscar. Assim que eu entrei no banheiro, alguém (que estava lá dentro, escondido atrás da porta) me trancou lá dentro. E quando eu fui ver quem era, era o tal primo de segundo grau (esse, infelizmente, eu me lembro do nome) completamente nu. Ele tentou me agarrar e eu comecei a chorar e gritar, até que ele abriu a porta com medo dos pais nos escutarem. Assim que saí do banheiro, todos estavam rindo de mim, eu corri pra minha mãe e implorei pra ir embora, sem contar o que tinha acontecido. De alguma forma, eu pensava que seria culpada pelo ocorrido. Minha mãe disse que não iríamos embora naquela hora, e eu me lembro de ter ficado sentada sozinha e chorando em um canto pelo resto do dia, até irmos pra casa.
(3)
E a última história, que até hoje, eu evitava pensar/lembrar, e negava pra mim mesma que tinha acontecido. Mas aconteceu. e eu não posso mais negar que fui efetivamente estuprada.
Um pouquinho de background: meu primeiro namoro durou 3 anos, dos meus 15 aos 18 anos de idade. Ele foi meu primeiro namorado, o primeiro rapaz com quem eu transei, enfim, muitos “primeiros” foram com ele. Quando terminamos, eu entrei em depressão (não só por esse fator, mas foi algo que ajudou). Um mês depois do término, eu fui na formatura das minhas “primas” (as mesmas ali de cima) e conheci um rapaz, o melhor amigo do namorado de uma das primas, com seus 23 anos. Conversamos durante a festa e ficamos. Eu me lembro de ter ficado empolgadíssima, minha mãe tinha adorado o rapaz e eu confiava que talvez fosse virar algo sério, afinal de contas, eu estava acostumada a estar em um relacionamento. Uma semana depois da festa, o rapaz veio me buscar em casa junto com minha prima e seu namorado, pra irmos fazer alguma coisa. Acabamos no apartamento do rapaz e fomos todos pro quarto dele assistir um dvd. Em nenhum momento eu pensei em transar, até porque nessa época pra mim “mulher que se valoriza não transa em primeiro encontro.” Em determinado momento, minha prima e o namorado foram pra sala pra ter privacidade e nos dar privacidade também. O rapaz prontamente se levantou pra fechar a porta do quarto dele, e eu me lembro de ter pedido pra não fechar, porque não queria que minha prima pensasse que eu estava fazendo “alguma coisa”. Ele não deu ouvidos, e voltou pra cama.
Eu deletei muita coisa da minha mente, mas me lembro que nesse dia (eu estava de vestido) ele abaixou meu vestido nos seios, comigo repetindo diversas vezes que não, impedindo com as mãos, enfim. Um detalhe: o rapaz tem 2 metros de altura (literalmente). Me lembro também que ele colocou a mão por dentro da minha calcinha, mesmo eu pedindo que não o fizesse e tentando mais uma vez, impedir com minhas mãos. em determinado momento, minha prima entrou no quarto e finalmente chegou a hora de ir embora. eu me lembro de estar bem angustiada, mas não demonstrei nem comentei nada, afinal de contas, não sabia de quem era a culpa (eu tinha deixado no final, não tinha?).
Uns dias depois, combinamos com a “turma” de irmos em um barzinho. O rapaz mais uma vez me buscou em casa, lembro de chegarmos no bar, de ficarmos 20 minutos lá e de ele ter reclamado que teria que acordar cedo no outro dia pra trabalhar, e que por isso iria me levar pra casa. Me lembro que no caminho pra casa, ele parou o carro em uma rua escura e me colocou sentada em cima do colo nele (no banco de motorista). ele colocou o pênis pra fora e tentou me penetrar, mas eu me lembro de estar menstruada e não querer fazer nada. ele tentou me penetrar mesmo assim (mais uma vez, eu estava de saia), até que eu resisti tanto me afastando, que ele desistiu. E, mais uma vez, eu não vi nada de errado nisso. Achei que ele estava ‘me desejando loucamente’ e que eu só estava “fazendo joguinho”.
Na outra semana, a gente se encontrou novamente. Eu não consigo me lembrar de na-da desse dia, não sei se ele me buscou em casa, no trabalho ou na faculdade. Mas sei que tivemos esse terceiro encontro antes do último, e sei que fomos pra casa dele. (E agora pensando com bastante força, acabei de me lembrar. Ele me buscou no meu primeiro trabalho e fomos pra casa dele, ele tentou transar mas eu disse que não, então ele só ficou se “esfregando” em mim com metade da calça abaixada - eu me recusei a tirar minha calça jeans, ele tirou do mesmo jeito, mas a calcinha ele não conseguiu tirar - eu não deixei). Me lembro de que ficamos menos de meia hora na casa dele e eu pedi pra ir embora.
O quarto (e último) encontro, eu me lembro bem. Tentei evitar pensar nisso durante todos esses anos (essa história já fez aniversário de 4 anos) e durante muito, muito tempo, sempre que alguém perguntava com quantas pessoas eu fiz sexo na vida, eu dizia o número e acrescentava “mas tem uma vez que eu não tenho muita certeza do que aconteceu”. Hoje eu sei. Não foi sexo, foi estupro.
Enfim, a fatídica quarta vez. Ele me buscou no trabalho à noite e fomos pra casa dele. Chegando lá, fomos prontamente pro quarto dele e o “amasso” começou. Dessa vez, ele conseguiu tirar minha roupa - a força. E eu me lembro dele colocar o pênis na minha boca e me mandar chupar. E me lembro dele me jogando na cama de bruços e tentando fazer sexo anal, mas eu gritei muito, porque estava doendo (ele provavelmente conseguiu colocar metade do membro dentro). E me lembro dele prendendo minhas mãos com as mãos dele na cama e me penetrando. E me lembro horrorizada, de ter permanecido de olhos fechados o tempo todo, tentando levar minha mente pra qualquer lugar que não fosse aquele. E quando esse festival de horror terminou, ele me levou em casa e essa foi a última vez que nos vimos. Me lembro dele ter me mandado um sms assim que me deixou em casa dizendo que tinha adorado, e me lembro de eu não ter respondido e apagado o número dele. Eu nunca contei isso pra ninguém, eu nunca mais pensei nisso, e meu cérebro me ajudou a não ter imagens desse dia se repetindo over and over. Até hoje. Do nada eu pensei. Do nada eu me lembrei. E eu fiquei tão atordoada porque parece que não aconteceu, que não foi comigo, que era alguém me contando essa história. Mas não. Foi comigo, e aconteceu, e eu senti dor, e eu sangrei no lençol, e eu chorei. Porque quatro anos depois, eu descobri que fui estuprada."
L.N.

Nenhum comentário:
Postar um comentário