27° relato
C. Vc é linda e forte! Vc não tem culpa alguma. Não sinta raiva de si mesma, vc não tem culpa de nada. A culpa é dos agressores!
" Eu sempre fui abusada. Nunca usei roupa curta, nunca fui muito atirada, nunca morei em lugar carente. Era o contrário, falar alto era complicado para mim, de tão tímida, estudava muito, morava em um condomínio fechado, era uma criançona que ia à Igreja três vezes por semana.
Quando eu tinha 5 anos meu namoradinho de 12 anos me fazia manipular o membro dele. Eu não sabia que era errado. Eu não gostava.
Quando eu tinha 9 anos o vigia do condomínio onde eu morava fez uma brincadeira, onde você aponta o dedo para a blusa da pessoa e quando ela abaixa a cabeça para ver o que é, levanta o dedo para o nariz. O dedo tocou o meu seio, e fiquei em choque. Ele aproveitou para encher a mão, passar de um lado para o outro. Só consegui reagir e sair de perto quando ele tirou a mão de mim. Eu não gostei.
Quando eu tinha 10 anos meu vizinho, casado, me mandou sentar na rede com ele. Então fez cócegas enquanto passava a mão no meu peito, e eu não conseguia nem respirar. O fôlego que tinha entre as risadas era para pedir que parasse, ou tentar empurrá-lo de cima de mim. Parou quando a mulher dele chegou. Eu não gostei.
Quando eu tinha 12 anos um dos coordenadores da escola de domingo da igreja que eu frequentava passava a mão em mim, sempre que podia. Ele tinha 20 anos e eu achava que ele tinha problemas mentais. Tenho um primo sindrômico que sempre tentava apertar os seios das meninas, e a família culpava a síndrome, achei que fosse uma variação do mesmo caso e tive paciência, segurava a mão dele enquanto conversávamos, evitada lugares escuros... Minha mãe e amigos próximos falavam que minha amizade colocava juízo na cabeça dele, que fazia bem, que ele precisava de mim. Que por causa do meu apoio ele parou de roubar e de se drogar.
Sem gostar da situação, passei a evitar ficar perto deste homem, mas minha mãe tentava nos reaproximar. Um dia, ele pegou carona no nosso carro, sentado do meu lado. Ele tentou colocar minha mão no pau dele e me perguntou se eu estava indo ao shopping para comprar lingerie para a gente usar. Eu não respondi. Eu tinha vergonha de conversar sobre aquilo, era uma atitude errada demais. Com o silêncio, achava que ele entenderia que eu estava desconfortável, que ele iria parar porque o que ele estava fazendo era errado. Ele continuou perguntando se eu ia comprar lingerie para usar com ele, eu só conseguia falar que não. Ele insistiu sem parar, perguntou por que até descer do carro. Eu suei frio para cada negativa que saia da minha boca. Não olhei mais na cara dele, por 7 anos. Nunca consegui beijar um negro, lembro deste homem e suo frio, em pânico. Essas situações se estenderam por três anos e eu não gostava.
Quando eu tinha 19 anos, e me achando livre deste tipo de situação, minha mãe começa a namorar meu antigo amigo, coordenador da escola de domingo. O mesmo homem que me abusava. Só fiquei sabendo o dia que ele se mudou para a minha casa, sem emprego, comigo pagando as contas. Eu pedi para que minha mãe tirasse ele de perto de mim, eu fiquei sem dormir, eu chorava noite e dia. Um dia criei coragem e contei o que houve, o que ele fez comigo, dos 9 aos 12 anos, morrendo de vergonha. Minha mãe não falou nada. No dia seguinte, no meio da minha crise de choro, eu perguntei para ela porque ele não tinha ido embora, porque a gente ainda sustentava ele, se tinha feito o que fez comigo.
Minha mãe muito calmamente me diz que conversou com ele mas que ele negou tudo o que eu disse. O vagabundo falou que nunca passou a mão em mim, nunca me perguntou se ia usar lingerie com ele. Eu saí de casa. Achava que ia ficar louca e que poderia matá-lo a qualquer momento, se ele se aproximasse de mim. Eu não gostei, e nem sei quem me abusou mais dessa vez, ele ou minha mãe. Não sei o que ele fazia na minha casa, como pôde mentir assim e como minha mãe pode ter acreditado nele.
Quanto eu tinha 28 anos o médico casado do meu filho o coloca para ver um vídeo no computador, logo depois da consulta e me chama para sentar em seu colo. Esse médico puxa meu braço. Eu resisto, gesticulo negativas. Ao menos consigo falar que não. Ao menos ele não me puxa com força. Eu só tremia. Eu não gostei.Hoje, luto contra muitos quilos extras, uma compulsão alimentar, bulimia. Nenhum beijo em um negro, nunca, mesmo os que eu adoraria ter namorado. Uma adolescência sem namorados, muita alegria impossível, muitas roupas impossíveis. E a raiva maior é de mim, pois eu não conseguia gritar, eu não consegui fazer nada, nem contar para meus pais - mas fico pensando, que se eu contasse, ninguém faria nada a respeito. Lembro de uma vez onde tentei contar sobre um dos abusos, e me falaram que era só impressão minha. Eu fui abusada várias vezes, não gostei e não consegui reagir e nem revidar. Não sei por quê. E mesmo sabendo que eram estes homens que estavam errados, acho que um grito assustaria eles, impediria que as cenas continuassem. Mas eu sempre fiquei parada, travada, sem conseguir me defender. Eu não gostei, eu não gostava, mas eu não conseguia fazer nada. E o que mais odeio nisso tudo, não é a maneira como me trataram, mas a maneira como não consegui reagir."
C.V.

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