Relato Nº 48
T. Queria poder tirar essa dor de ti, mas não tenho esse poder, saiba que te admiro, tu é linda e ainda quero te abraça pessoalmente!
"Tinha dez anos a ultima vez, foi a unica que reagi, que gritei, empurrei, disse NÃO. A ultima vez foi violenta. Na ultima vez fui penetrada. Tinha ente 4/5 anos quando começou. Foram meus dois irmãos, primos e amigos dos meus irmãos. Não sei exato quantos, só lembro dos abusos que sofri. Lembro do meu corpo estático. Lembro de ficar quieta. Lembro de quase não me mexer. Lembro de que as vezes eu "gostava". Hoje sei, "gostava" porque havia estimulo, por ficarem se esfregando nus em mim, também nua.
A questão não é quando começou, mas porque começou.
Minha família é uma tipica família tradicional, cristã e não podia faltar, claro, machista. Por anos, fui a unica neta e sobrinha mulher, por anos eu fui a atenção da família por ser mulher. Atenção esta, que causou inúmeros desejos. Por anos eu era/fui o objeto de desejo.
Não quero fazer analises teóricas sobre o meu relato, quanto a "moral e bons costumes", vou apenas pontuar algumas questões. Nesta noção de moral e bons costumes, inclui transformar a mulher em objeto de desejo. Ensina-se desde pequena um comportamento aceito/desejado para uma mulher, ao mesmo tempo que ensina-se homens a desejar este objeto, à mulher.
Na minha família não foi diferente. Filha caçula, com dois irmãos mais velhos e inúmeros primos, tios e pai. Fui criada para ser a tal "mulher de verdade" enquanto os meninos da família foram criados para serem "machos". Os machos aprenderam muito bem diga-se de passagem. Os primeiros contatos sexuais deles com o objeto de desejo, o corpo feminino foi o meu. Me usaram para satisfazer os desejos que desde pequenos foram estimulados.
Eu era a figura feminina que se encontrava sozinha com eles. Era a figura feminina que eles ouviam dos mais velhos, que deviam "pegar muito". E de fato, pegaram, pegavam e fazia o que queriam.
Crianças tem sexualidade, isto é inegável, se não tivesse, meu corpinho de criança, não teria sido "brinquedo" dos meninos da mesma idade (Primo) e um pouco maiores (irmãos e os amigos deles) por tantos anos.
Foram assim boa parte da minha infância, meu corpo sendo usado como "brinquedo" praticamente todos os dias por eles. No inicio era como brincadeiras inocentes, brincadeiras escondidas. Você que esta lendo pode até lembrar de ter brincado assim com suas primas, irmãs, amiguinhas, quem sabe você que esta lendo não foi a prima, irmã e amiga. Você que esta lendo pode lembrar de ter brincado com seus genitais, junto com outros. Porque sim, crianças também sente prazer. A questão que quero levantar é, até que ponto um adulto não deve interferir nestas brincadeiras? De que maneira deve-se orientar estas crianças para que esta brincadeira não se torne um abuso sexual? De que maneira deve-se orientar estas crianças a não abusarem de outras crianças?
Por muitas vezes lembro que não, eu não queria nenhum pouco estar lá. Não queria "brincar" com eles, mas não adiantava, eles simplesmente chegavam, "brincavam" e iam brincar com outras coisas. Nunca contei porque por varias vezes fui reprimida, eu não podia me tocar, se me toca-se apanhava, levava bronca. Não contei que "brincavam" porque não queria apanhar, não queria levar bronca. Afinal não brigavam com os meninos, para eles sempre ouvi e vi os adultos incentivarem a se tocarem "Cadê o pipi?", "Já tem pelos?", "Ta grande?", "Faz chichi na grama mesmo", "Este vai ser garanhão, pequeno assim já é taradinho"... estas frases são algumas das outras tantas que ouvi a vida toda sendo dirigida aos meninos. A mim sempre foi dito "Tira a mão", "Feio, não pode", "É sujo, não pode"...
Eu era uma menina de 4/5 anos que ouvia de um adulto que meu corpo era feio, sujo e que eu não podia me tocar, isto foi dito a mim sozinha e foi dito na frente dos meus irmãos e primos. Eles eram incentivados, eu não. Eles podiam se tocar, logo podiam tocar o meu corpo, porque eu não podia. Parece ilógico? Sim, e é de fato, mas que parte da educação machista tem lógica?
Consequência destas "brincadeiras", quando tinha por volta de 7/8 anos, percebi que aquilo era errado e passei a evitar ficar com eles, quando ficava, era abusada. E foi assim até meus 10 anos. Evitava quando podia. Aos 10 meu irmão mais velho tinha 14 anos e naquele dia ele decidiu que não ia mais brincar, mas sim me estuprar e assim o fez quando abri a porta do banheiro para sair. De forma agressiva sem me dirigir uma palavra. Gritei, o empurrei, chorei., apanhei.
Por anos, esqueci o que tinha acontecido, depois daquele dia minha memória apagou todos os abusos e inclusive aquele. Por anos carreguei uma agonia gritante ao entrar em banheiros, tinha medo e não me lembrava por que. Por anos, ia para o banho e não tomava, não conseguia tirar a roupa, simplesmente ligava o chuveiro e deixa a aguá cair, molhava os pés e mãos, molha um pouco a toalha, trocava de roupas rapidamente e saia. Por anos eu não sabia porque fazia aquilo. Hoje eu lembro. Por anos tive pesadelos com aqueles abusos e agora tudo veio a tona. Não eram pesadelos apenas, esta foi a minha infância. Agora eu entendo tudo que aconteceu comigo dentro da minha casa.
Escrevo em meio as lágrimas, porque dói lembrar de tudo isto. Dói saber que ninguém me ajudou. Dói saber que já conversei com sete caras que me confessaram aos risos que brincaram com as primas quando crianças. Dói pensar nestas sete primas. Dói lembrar que tenho uma amiga com uma história de abuso parecida. Dói andar nas ruas e ver crianças e imaginar que possa ter adultos completamente despreparados cuidando deles. Dói pensar que pais e mães irresponsáveis quando crianças, também "brincaram" sozinhos sem a devida orientação. Dói pensar que muitos homens podem ter estuprados mulheres achando que estavam apenas "brincando". Dói saber que a sociedade educa todos para acreditarem que mulheres são meros pedaços de carne.
Preciso dizer também que estes não foram os únicos abusos, sofri três tentativas de estupros depois. Aos 11 por um amigo da família. Este eu contei para a minha mãe, que me disse que homens fazia aquilo mesmo, que eu deveria me cuidar. Chegou a compartilhar a história dela também, um tio tentou estupra-la e ela conseguiu fugir. Me contou como quem dava um exemplo de que sim. Homens atacam, homens são assim e não há nada que a gente faça que vai poder mudar isto. Minha mãe acredita nisso. Eu não. Sofri outra tentativa aos 18/19, desta vez foi o chefe, nunca contei pra ninguém. A outra foi aos 21, uma festa com amigos, bebi e um dos "amigos" começou a sessão de "amasso". Pedi para parar, empurrei. Uma amiga veio e tirou ele de cima de mim.
Quando dia 23, namorava com um cara, era muito apaixonada por ele. Ele me estuprou uma vez e só lembrei disso a pouco tempo. Disse que não queria transar, mas ele insistiu, começou a se esfregar em cima de mim, meu corpo paralisou, foi como se eu tivesse voltado aos meus 4/5 anos, ele continuou e só parou porque ficou bravo de eu não estar "participando" do estupro. Voltei a realidade só consegui dizer, que não estava afim de transar, angustiada por estar sentindo uma sensação horrível que não sei explicar. Só terminei o namoro porque este mesmo cara me bateu, me agrediu porque eu não quis ir dormir na casa dele.
Entro em pânico quando sou "cantada" na rua, porque tudo que dizem eu ouvi da boca de todos os que já abusaram de mim. Tenho a constante impressão que qualquer dia vou matar um cara. Sempre respondo com muita agressividade quando passam a mão em mim.
O que queria dizer é que sim, nós vivemos em uma cultura machista. Estupradores não são doentes. Todo homem é um potencial estuprador. A cultura machista educa homens para serem assim e educa mulheres para sofrerem estes abusos caladas. Mas eu não quero sofrer, não quer ser estuprada e que nenhuma criança passe por isto. Não quero que nenhuma mulher sofra.
Hoje luto, milito, grito, bato se for preciso. Meu corpo, minhas regras.
Homens insistem em dizer que mulheres feministas precisam de "rola" ou serem estupradas para aprenderem qual é o lugar delas. Pois eu quero-lhes dizer, eu já fui estuprada e não funcionou pra me fazer entender qual é o meu lugar enquanto mulher, me fez ter mais certeza que nenhum homem manda em mim e em nenhuma mulher. E e é por não querer que isto ocorra com as mulheres que luto e continuarei lutando. É por causa delas e das que ainda vão nascer que resisto. É pra dizer pra vocês que não, vocês não tem direito sobre nossos corpos, vidas e útero.
As mulheres cis e trans* quero dizer. Juntas somos mais fortes!"

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