Para os meus agressores:
Esse relato é uma tentativa desesperada de conseguir me livrar de toda essa dor que existe em mim. É anônimo, por questões um pouco óbvias, mas tudo o que consta aqui aconteceu de verdade. Tem esse título porque é tudo o que eu queria poder dizer para os meus pais, mas não consigo.
A primeira lembrança de um abuso sofrido tendo meu próprio irmão como algoz, foi aos 9 ou 10 anos. Meu irmão é 4 anos mais velho do que eu.
A minha primeira lembrança era dele, saindo do banho, enrolado na toalha, perguntando se eu queria ver ele nu. Fiquei sem reação e não consegui dizer nada. Então, ele tirou a toalha do corpo e me mostrou seu pênis, começando a se masturbar na minha frente.
Eu nunca soube dizer não.
Eu nunca consegui contar pros meus pais.
A partir dessa primeira lembrança, os abusos começaram a ser diários. Desde ter ele esfregando os genitais no meu, ou pedindo para que eu segurasse seus genitais, até ter ele ejaculando em diversas partes do meu corpo, como seios, costas, boca, mãos. Era comum ele se masturbar até gozar em mim ou na minha frente. Os abusos sempre aconteciam quando meus pais não estavam em casa, quando estavam no trabalho, mas a partir de certo momento, começaram a acontecer mesmo com a presença dos meus pais em casa, normalmente quando íamos dormir (eu e meu irmão dividíamos o mesmo quarto, porque a casa em que morávamos era pequena e só tinha dois quartos, um para os meus pais e um para as crianças). Certa noite, eu estava na minha cama, quase dormindo, quando meu irmão chegou, tirou seu pênis pra fora e começou a roçar em mim, nos meus genitais. Eu não disse nada, só fiquei parada. E nesse dia, meus pais descobriram tudo. Minha mãe abriu abriu a porta do quarto e nos viu. A partir desse momento, tudo virou um caos maior ainda.
Minha mãe começou a chorar, acordou meu pai e os dois vieram conversar conosco. No fundo eu me sentia aliviada, porque aquela história parecia que teria um fim. Meu pai fez perguntas que na época eu nem entendia o que significavam ("você penetrou sua irmã?", "você ejaculou nela?"). Tenho certeza que meu irmão mentiu em algumas respostas. Eu estava paralisada, com medo. Lembro poucas coisas dessa noite, quem sabe mais pra frente eu tenha mais memórias. Nessa noite, minha mãe me fez ir dormir no quarto dela, longe do meu irmão. Eu estava tão atordoada! Eu fui, dormi e no dia seguinte, ao acordar, com a cara enfiada no travesseiro, morrendo de vergonha, as primeiras palavras que eu ouvi foram: "e aí filha, está orgulhosa do que você fez ontem a noite?" no maior tom de desdém e culpa que já ouvi em toda a minha vida. Essas palavras nunca saíram da minha mente e estão aqui, até hoje, ecoando. A vergonha que eu senti naquela manhã e em todos os outros dias seguintes me mata até hoje.
Hoje eu sei o quanto isso afetou toda a minha vida escolar e afetiva (até hoje). Agora consigo entender porque sempre fui uma adolescente tão ansiosa, carente, com uma auto-estima terrível. Não tenho lembranças de ver meus pais conversando seriamente com meu irmão sobre como aquilo era errado e, muito menos conversaram comigo pra tentar resolver essa situação. A única coisa que sei é que, a partir desse dia, passamos a dormir em quartos separados e um silêncio pesadíssimo pairou em cima dessa história. Nunca mais falamos sobre isso. Nunca mais meus pais me perguntaram nada. Silenciaram a violência dentro da nossa própria casa, dentro do nosso espaço seguro.
Eu não consigo compreender o que houve a partir daí. Minha analista disse que o silêncio dos meus pais foi o consentimento para que os abusos continuassem. Essa interpretação pode parecer meio torta, mas tem feito todo o sentido desde então.
Acredito que meus pais achavam que essas "coisas" (como eles mesmos nomeavam os abusos) não voltariam acontecer após uma bronca. Porém, a falta de cuidado, a negligência e principalmente a falta de diálogo, acabaram incentivando mais ainda a violência dentro de casa. Não houve punição, não houve acompanhamento, então, caminho livre para que tudo se repetisse.
Sei que os abusos só pararam quando eu completei 15/16 anos, quando tive meu primeiro namorado e quando meu irmão encontrou a menina com a qual veio a se casar depois. Sei que esse período todo, depois dos meus pais terem descoberto e supostamente terem feito algo, foi o período onde os abusos ficaram mais sérios e mais marcantes, pois se tornaram diários, rotineiros, naturais:
Eu era penetrada quase todos os dias. Em algumas vezes, penetração anal.
Eu era coagida a engolir esperma. Eu era coagida a deixar ele ejacular em mim. Quase todos os dias.
Eu era coagida a tomar banho com ele.
Eu passei minha pré-adolescencia e minha adolescencia inteira com o pânico de engravidar do próprio irmão.
Eu fui exposta à pornografia desde muito cedo. Eu assisti muitos vídeos pornográficos e era coagida a reproduzir o que eu via neles. Isso acontecia quase todos os dias.
Eu fui chamada de puta, putinha, piranha e prostituta pelo meu irmão, durante muito tempo. A primeira vez aconteceu quando eu tinha 13 anos e enquanto ele me estuprava, falou: "prenda esse cabelo que fica caindo na minha cara, parece uma puta pobre".
Meus pais nunca souberam do que aconteceu após aquele "flagra". Eles nunca souberam que eu fui estuprada dos 10 aos 15 anos pelo meu irmão mais velho e que isso só parou porque eu, com 16, comecei a namorar e ter uma vida sexual consentida, ele também começou a namorar. Até hoje me pergunto se não fosse essa pessoa ter aparecido na minha vida aos 16 anos, onde eu estaria? Como estaria? Grávida do meu irmão aos 15 anos? Hostilizada e humilhada pela minha família? Meu irmão, 4 anos mais velho do que eu, mantinha uma vida sexual ativa com suas namoradas e ficantes. Quantas doenças eu poderia ter contraído em relações não-consensuais? Meus pais nunca prestaram atenção em nada disso e mesmo depois do alerta, continuaram negligentes, me negando diálogo e uma educação sexual consciente. Me negaram afeto, atenção e voz.
Depois de muito pensar, cheguei a conclusão de que eu demorei muito pra desenterrar essa história (só consegui assumir que isso foi um abuso agora, aos 21 anos e que todo esse abuso minou minha sexualidade e auto-estima durante todo esse tempo) porque sempre acreditei que essas relações tinham sido minha culpa, que eu nunca disse nada, que eu nunca reagi. Mas só agora eu fui entender que falta de consentimento não tem a ver necessariamente com violência, sangue, dor física. Pra mim, durante toda minha pré-adolescencia e adolescencia, teve a ver com medo, com humilhações diversas, com falta de afeto e atenção dentro de casa. Eu, com 12 anos, fiz o que pude. Eu, com 15 anos, fiz o que pude. Eu sempre fiz o que pude fazer, que na maior parte do tempo foi nunca reagir, porque o medo e a repulsa me paralizaram. Por anos.
Então hoje, eu escrevo essa carta para meus pais. Eu espero um dia poder destiná-la, realmente, pra vocês. Pra que vocês saibam que essa dor que hoje me destrói e me corrói e que me faz ter uma vida turbulenta e infeliz, que me prejudica nos meus relacionamentos afetivos, que me prejudica no meu trabalho e nos meus estudos, essa dor que me faz sobreviver um dia após o outro, quase sempre querendo morrer, que me faz não saber aceitar as coisas boas que algumas pessoas tentam me proporcionar, que essa vida onde estou acostumada somente com a dor, com as diversas mutilações, essa dor é culpa de vocês, da falta de cuidado, de afeto, de um olhar atencioso, de diálogo, de empatia. Essa dor, que começou a ser desconstruída agora, não deveria doer em mim, mas sim em vocês.
E eu espero que um dia essa dor chegue em vocês e os mate, como tem tentado me matar, todos os dias.
E também, em nenhum momento eu tiro a responsabilidade do meu agressor direto, meu irmão mais velho. Ele, quarto anos mais velho que eu, manteve amizade com um amigo que também abusou de mim quando eu era criança (e o amigo mais velho que ele), também sabia o que estava fazendo. Eu não tento criar espantalhos nem alvos, mas no momento, até eu conseguir começar a superar essa história, eu preciso nomear as coisas para continuar sobrevivendo com essa dor. Então, eu não tive apenar um agressor, eu tive três. Três agressores que me propiciaram um ambiente de medo, culpa, vergonha, falta de auto-estima e dor.
Hoje só consigo encontrar forças nas pessoas que estão ao meu redor para poder tentar sobreviver. Elas têm tido um papel essencial de cuidado e atenção e eu não sei como estaria vivendo sem elas. Então, mesmo anônimo, deixo dois agradecimentos. Um, pra uma grande amiga que compartilha uma história de violência parecida com a minha e que também foi publicada aqui (obrigada querida, você foi uma parte importantíssima pra essa minha reviravolta e minha superação, eu amo você e nós vamos superar, mesmo que doa e que seja difícil) e outro, pra pessoa que está comigo a quase um ano e que vem fazendo parte de diversas descobertas da minha vida, uma mulher maravilhosa e forte que me faz sentir alguém um pouco melhor sempre e que dá sentido a muitas coisas em meio a esse caos (obrigada, beibes, acho que sem você por perto, eu já teria desistido).
Esse relato é um desabafo e um alerta. Publicizar minha vida pessoal, mesmo que de um jeito anônimo, é muito dolorido e angustiante e só faz sentido se for servir de alerta pra outras pessoas e outras famílias. Prestem atenção nas crianças, ouçam elas, deem amor e afeto e atenção e não as deixe à mercê da solidão e da ausência. Sejam presentes, sejam bons e afetuosos. Confiem nelas, acima de tudo. O amor e a atenção constroem mais do que essa necessidade que as famílias têm de ver crianças independentes cada vez mais cedo. Acredito que esse tipo de violência intra-familiar é mais comum do que pensamos, infelizmente.
Força pra todas nós.
A.













