34° relato
J. te desejo muita luz e saiba que sua filha tem uma mãe guerreira!!!
" É um relato longo, mas explica os meus momentos depressivos, minhas tentativas de suicídio e a luz no fim do túnel quando na dor, pari uma criança que me mantém viva para protegê-la desse tipo de situação.
Por volta dos 7, 8 anos, o marido da minha tia começou a passar a mão em mim, mesmo em eventos familiares. Logo evoluiu para me chamar para sentar no colo dele, e mesmo na frente de todo mundo, ele conseguia me tocar. Eu achava bem estranho e desconfortável, mas ninguém nunca me falou sobre isso, apesar de me incomodar fui ensinada que os mais velhos tem razão e merecem ser respeitados (pff).
Não demorou muito para que eu fosse dormir na casa dos meus tios quando meus pais precisavam ou em momentos muito aleatórios. E na primeira vez já foi uma coisa brutal, e eu me pergunto se minha tia sabia ou não. Eu fiquei assustada, com muita dor e uma sensação de impotência sem tamanho. Contei para a minha mãe, o que ela me disse foi “vai acabar um dia, fica calma”. EU NÃO SEI O QUE DEU NA MINHA MÃE, mas aparentemente ela sabia disso o tempo todo e era conivente. Eu tento acreditar que ele a ameaçava com algo muito mirabolante, porque não faz sentido na minha cabeça algo assim (ainda mais porque eu sou mãe). E, não, não era um peão, é um professor universitário com não sei quantas pós nas costas, mestrado e o caralho a quatro. Foi um homem de bem, da tradicional família mineira que me machucou de todas as formas possíveis.
Ao tentar contar para a minha avó, ele disse algo sobre parecer que a minha irmã, 5 anos mais nova poderia ser mais obediente que eu. Me calei e assim se seguiu, noites infinitas naquela casa.
Quando eu tinha uns 13, 14 anos, a diversão dele era me queimar com cigarros e enfiar lápis com pontas afiadíssimas nos machucados. Me prendia no pé da cama no escuro e jogava água gelada em mim, por horas. Tenho pavor de água fria até hoje. Acho que desenvolvi uma técnica de memória horrível para esquecer desses eventos, e quando ocorriam eu entrava em uma espécie de transe repetindo “vai acabar, fica calma” (beijos, mãe!).
E então, na oitava série eu me vi grávida. Contei para o meu pai, que quase me matou. Mas pedi alguns minutos e expliquei a história. Ele não falou uma palavra, sumiu de casa transtornado e no dia seguinte me entregou 6 mil reais e um endereço de uma clínica num papel. Eu, jacu de cidade pequena fui para a capital e fiquei três dias internada. Com medo, com frio, com a cabeça a mil. Voltei para a casa e foi como se nada tivesse acontecido, além da notícia que o dito cujo havia sumido após um acidente. Creio que o acidente foi o meu pai louco da vida ao saber o porque sua filha era tão deprimida para a idade, não conversava e apesar de ser muito querida, tinha pavor de contato físico.
Hoje esse homem não está mais com a minha tia, mas eu o vi por acaso na rua e entrei em pânico, porque coincidências não acontecem assim, sabe? Tenho medo de que ele saiba meu endereço e volte com sua psicopatia para cima de mim, ou pior, da minha filha.
Já fui espancada no meio da rua por um imbecil que passou a mão em mim e me cantou horrores, e ainda tentou levar minha bolsa. Já fui ameaçada com uma faca por um homem no meio da rua, porque disse que eu não ia namorar com ele (um completo desconhecido, vejam bem). Já fui violentada em um casamento. Já tive um amigo extremamente embriagado se jogando em cima de mim e dizendo que por ser mãe solteira eu estava ali para isso.
Sempre ouço que sou bonita, chamo a atenção. Mas eu não me vejo assim e quero passar despercebida quando o assunto é: homem. Mas eu sei que não é questão de beleza feminina, de roupa, de estilo, de doença: é falta de respeito e empatia do estuprador e abusador mesmo. É falta de noção.
Esse tipo de coisa me dói. Dói saber que tem gente que faz piada, que trata esse assunto como uma mera amenidade ou instinto. Dói muito, dói tudo até hoje. E não há uma noite sequer em que eu não me lembre de tudo com nitidez e tenha pesadelos vívidos com meu maior medo. Mas meu maior medo hoje, confesso, é que minha filha passe por algo do tipo.
PS: não preciso dizer que assim que fiz 18 anos já não morava mais com meus pais e tenho a pior relação (e mais distante) do mundo com eles exatamente por não entender como pais deixam filhos passar por isso."
J.

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