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terça-feira, 27 de maio de 2014

RELATO N° 29


Relato N° 29

Eu lembro da sua história. Você me contou uma vez no orkut. Eu lamento muito que você tenha passado por tudo isso. Sinta-se acolhida.

"Oi Laura, quero também deixar o meu relato! Já relatei uma vez, mas agora com esse grupo, vejo que as pessoas merecem colocar pra fora toda a dor que sentem.
A partir dos meus 7 anos, começou a minha tortura. Meu pai trabalhava em uma oficina mecânica na rua de traz da casa da minha avó, com quem eu morava, mas ele sempre pedia pra eu ir “ajudar” ele. E nisso ele ficava me acariciando, tocando meu corpo e até esfregando o pênis dele em mim.
Teve uma dia que ele penetrou meu ânus e aquilo doeu demais, e eu só chorava, ele pediu pra eu ficar quieta e disse: “foi sem querer, papai não queria te machucar. Pega esse dinheiro e compra umas balinhas tá, mas não fala nada pra ninguém tá bom, o papai não fez por mal”. (Até hoje quando passo em frente a esse galpão, me lembro nítidamente de tudo e sinto a dor )
Aos 11 anos, minha bisavó faleceu, e então minha avó chamou meus pais para morarem no mesmo quintal, já que vagou uma casa, eles vieram. Eu na empolgação de ter os meus pais e irmãos perto, pedi pra ir morar com eles (maldita hora que fiz isso), implorei pois minha avó não queria deixar, mas mesmo assim, fui.
Antes não tivesse ido, antes nunca tivesse ido, pois TODOS os dias, TODOS, eu acordava assustada pois estava lá, meu pai, passando a mão em mim e até colocando o pênis na minha boca.
Voltei pra casa da minha avó, mas mesmo assim, não estava livre, pois quando passavamos no corredor de casa ele me passava a mão, eu gritava, xingava e minha avó dizia: “respeita seu pai menina, onde já se viu isso, não foi isso que te ensinei”. E eu ficava com mais raiva ainda.
Lembro que com 12 anos eu queria muito, muitíssimo ir ao passeio do playcenter da escola e só pude ir, (pois ele só me deu o dinheiro) com a condição de que eu ficasse nua na frente dele. Eu tentei negociar, disse: “pai, pra quê isso, por favor, quero muito ir no passeio” e ele ficou me “chantagiando” até o dia que cedi, que foram 3 dias antes do passeio, mas me senti péssima, me senti nojenta, vagabunda por estar fazendo aquilo, afinal, estava me “vendendo “ pra um passeio.
Tiveram várias cenas que aconteciam diversas situações de medo, jogando video game, com meus irmãos na sala ele brincava de cabaninha, me enfiava pra debaixo e botava o pênis pra fora pra por na minha boca, entre outras coisas que sei que aconteceram, mas não consigo lembrar. Só lembro que ele sempre dizia que eu não podia contar nada pra ninguém, que ele seria preso, os caras na cadeia iriam matar ele. Ai eu ficava com medo.
Com 15 anos, fiquei “mocinha”, primeira menstruação. Foi através de amigas da escola que descobri o que acontecia depois disso se eu transasse sem camisinha e meu maior medo era ser estuprada pelo meu pai e ficar grávida. Prometi pra mim mesmo que nunca mais ele encostaria a mão em mim e um dia, quando passamos pelo corredor, ele passou a mão na minha bunda, gritei escandalosamente: paraaaaa com isso, to de saco cheio, não aguento mais você me infernizando. Minha avó apareceu, mas eu não contei nada, disse só que ele tava me enchendo o saco. Só que eu, numa oportunidade, falei pra ele, encosta a mão em mim de novo que você vai ver se eu não te coloco na cadeia, foda-se se vão te matar. Mas óbvio que eu não tive coragem de contar.
Só que não sei porque cargas d’água, eu perdoei meu pai, sinto muita tristeza e dor quando falo sobre isso, mas eu o perdoei. Hoje temos uma boa relação, mas desde meus 15 anos, ele nunca mais encostou um dedo em mim, acho que ficou com medo. Aos 24 anos, não sei por qual motivo, minha avó descobriu tudo isso. Me chamou pra conversar e eu contei tudo. Ela ficou horrorizada, ah e ela é mãe dele, falou um monte pra ele. E hoje ele vive uma vida não muito boa, cheio de problemas, dívidas, falta de emprego ... minha avó diz que é o pecado que ele já esta pagando, que aqui se faz, aqui se paga.
Todas as vezes que vejo matéria de pedofilia, estupro ou violência contra a mulher, aflora essa história na minha mente e fica me pertubando. E me compadeço, pois fui violentada também, na época, nem imaginava o que era, quando vi a primeira reportagem sobre pedofilia, é que entendi o que acontecia comigo.
Talvez não seja um relato tão triste e comovente como outros, mas aconteceu comigo, fui vítima. Só quem passa, o sentimento que se tem ao ser acordada com alguém passando-lhe a mão, é de acabar com o ser humano. Pânico essa é a palavra que resume o sentimento, por mim vivido."

L.S – 30 anos – São Paulo

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