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quarta-feira, 28 de maio de 2014

RELATO N° 45

45º Relato.

N. Você não tem culpa de nada! Sinta-se acolhida!

"O Escort cinza causava nela um sentimento estranho que ela não sabia se tinha nome, mas sentia no estômago e tinha algo a ver com as viroses. Como se a comida fosse escapar pela boca. O carro tinha um cheiro estranho, de velho, e de produtos para conservar o estofado antigo. Era um cheiro de segredo e os segredos não cheiravam bem para uma garotinha de cinco anos. E nem depois, para uma garota de 15, 16, 17, 18. Quando o avô vendeu o carro, ela sentiu uma felicidade de Brasil campeão da Copa do Mundo. Aquela felicidade de fogos de artifício e tirinhas de plástico amarelas e verdes chacoalhado no alto das ruas de Pirituba entre as fiações e as pipas perdidas.

O que ela não entendia, aos cinco, é como podia se sentir mal por ter esse cantinho que era dela, só dela e do primo, que era seu melhor amigo. Ele era forte para um garoto de oito anos, alto e carregava um ar de mistério que fazia ela lembrar daqueles filmes com o Morgan Freeman ou com o Anthony Hopkins que a mãe dela adorava ver e sempre se gabava de descobrir o assassino antes do filme revelar o final.

O que ela também não entendia, era porque ele era tão triste. Ele tinha um pai e uma mãe, dois irmãos para brincar, o Lego mais completo do mundo, que ele tinha ganhado do Papai Noel que visitava a família todo ano e um cachorro, coisa que a mãe dela nunca deixava ela ter, pois tinha medo do animal. Ela tinha querido tanto um cachorro. A mãe, contudo, havia lhe contado uma história horrorosa sobre quando um cão grande quase a matou quando ela mesma era criança. Depois disso, ela interpretou os cachorros como coisas das quais devia ter medo, principalmente o do primo, que era enorme, dentuço e com as orelhas de pé que davam sempre a impressão que ele estava te ouvindo pra te caçar.

Ela também tinha uma certa inveja dele porque o avó amava ele muito mais do que amava a ela. Ele era carinhoso com os dois, claro, mas isso só tornava a preferência ainda mais dolorosa. Quando o vovô lhe contava histórias de bichos e acariciava sua cabecinha de cabelos ralos, nunca era igual como com ele.

O vovô era uma figura mítica, uma espécie de herói como o Morgan Freeman. Ele tinha muitos princípios, tinha trabalhado muito na vida, mudando de lugar em lugar para construir todo tipo de coisa. Ela sentia que ele tinha construído São Paulo inteira! Uma vez, ele tinha perdido um pé quando um elevador despencou nele em uma obra e conseguiu grudar ele na perna e botar pra funcionar de novo. Ela pensava que isso só podia ser um tipo de superpoder. Outro superpoder que ele tinha era o de imitar o som dos animais. Ele costumava assustar a vó na pia, imitando um gato e raspando algo na perna dela. Ela saltava em cima do azulejo rosa e depois dava nele uns tapinhas cheios de amor.

Era bom que o primo morava ali, sempre perto deles. A casa dele ficava embaixo da dos avós dos dois e ele podia subir e comer mentiras e polenta com frango sempre que quisesse. Ela só podia fazer isso de final de semana, quando o pai a levava para almoçar ali. Nesses dias, o primo revelava o mundo para ela. Levava ela para o galinheiro e mostrava onde as galinhas punham ovos em segredo. Ensinava ela a construir cabanas de madeira velha que levavam até pregos a marteladas. Deixava ela jogar taco e andar de carrinho de rolimã e a defendia quando os meninos da rua diziam que aquilo tudo era coisa de menino. Ele retrucava: "É coisa de quem quiser fazer!"

Todo ano ele guardava economias para comprar um presente para ela no Natal. Isso fazia ela se sentir muito muito especial. Ele também lhe contava segredos, como revelar que achava que a vizinha estava ficando muito bonita desde que lhe começaram a crescer peitinhos.

Tá certo que ele batia nela sem razão de vez em quando, mas ela achava que ele fazia isso para esquecer que era triste sem motivo. Teve uma vez que ele arremessou um tronco de madeira mais grosso que os tacos de baisebol na cabeça dela, só porque ela deixou uma das cabanas dos dois despencar. Outra vez, ele encheu ela de socos porque os pais dela estavam comprando uma casa com piscina e a casa dele nem dele não era. Mas, coitado, ele era triste.

Ela amava ele como quem sente que deve algo a um protetor. Ele tinha ensinado quase tudo a ela, a protegido, ensinado a ela que ela podia fazer coisas de menino. Ele tinha mostrado que ela era digna de segredos.

Ela não gostava de todos os segredos, no entanto. Principalmente do segredo do escort cinza. O vovô tinha ido dar aquele cochilo de domingo após a muqueca e a vovó estava ocupada lavando a louça quando ele, furtivamente, pegou a chave do carro. Convidou-a para brincar no escort, disse que eles iam fingir que iriam numa viagem. Quando eles entraram no veículo, ela perguntou quem ia ficar no volante e ele respondeu "ninguém".

A brincadeira ficou esquisita quando ele disse que ela precisava tirar a roupa, toda, para participar do faz-de-conta que ele estava propondo. Ela seguiu as ordens, afinal, ele era quase três anos mais velho e conhecia mais jogos e filmes do que ela. Quando ele deitou em cima dela, nu, ela começou a chorar. Ele perguntou porque e ela só respondeu que lembra que o padre tinha dito uma vez na missa que só os casados deviam se deitar pelados. Ele disse que não tinha problema, porque ela era menina, ele menino, e ele tinha visto num filme que era assim que se fazia.

Ela disse que não queria brincar mais, que ia embora perguntar para o vovô se aquilo era verdade. Ele empurrou a cabeça dela contra o chão, disse que ela ia ficar ali e brincar, senão ele ia jogar o cachorro em cima dela. Fez uns movimentos que ela não entendeu - ele parecia não entender muito bem tampouco. Ela ficou sentindo o peso do inferno no peito. Tinha certeza que o diabo, com seu garfo gigante, ia buscá-la de noite. E, quando o choro dela tornou a brincadeira insuportável, ele a fez se vestir e disse que aquilo era legal, porque agora eles tinham outro segredo.

Nunca mais ela quis entrar naquele carro. Ela sonhava com aquilo tudo e achava que tinha feito algo errado. Ele era muito doce e fiel amigo, afinal, se ela era uma chorona, a culpa não era dele.

Continuaram melhores amigos até a puberdade chegar. Quanto mais os seios dela cresciam e o quadril alargava, mais ele se afastava, mais mantinha segredos e até chegava ao desatino de afirmar que ela não era convidada a alguns jogos de videogame "de menino". De repente, ser menino tinha ficado muito importante para ele. E ser forte. E parecer feliz, apesar dela sempre saber que, no fundo, ele continuava muito triste."
N.

Ela deixou ele se afastar, com pesar. Ela perdia o melhor amigo, afinal, isso não era triste? Tá certo que ela não lembrava mais, quase nunca, da história do escort, que ela guardou como o segredo que pareceu nunca conhecer.

Quando os dois já eram adultos, o vovô teve uma doença grave. Ela o acompanhou no hospital como quem mendiga o amor dele pelos últimos instantes, feliz em ser amada mesmo sem ser a favorita. Ela já havia lido muitas coisas, era inteligente, estava em uma universidade respeitada. O primo não era ninguém, tinha ficado feio. A única coisa que não mudou era que ela era feliz e ele triste, ambos sem motivo.

Ela já sabia que mais de um terço dos pedófilos eram, eles também, menores de idade. Ela sabia que o primo a havia estuprado. Ela sabia, mas não contava para si mesma. Era segredo.

No dia em que o vovô ia morrer, ele quis ver a família. Cada um subiu ao quarto dele, teve seu tempo privado. O primo viajou até a cidade do interior onde ficava o hospital, mas não subiu. Não conseguiu.

Foi o dia em que ela entendeu. Ele se culpava. E achava que o avô, única pessoa que o tinha amado e ensinado o certo do errado, não merecia olhar para o que ele tinha se tornado. Não antes de morrer.

E ela ficou triste. Ficou triste pelo avô e até por ele. Ficou triste e entendeu porque ele sempre tinha sido taciturno. Enquanto ela temia nunca ser a favorita do avô, ele tinha recebido um favoritismo que nunca mereceu. E o avó, graças a Deus, morreu sem nunca saber.

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