36º Relato - O meu relato .
Eu tinha completado 15 anos havia apenas uma semana, foi no dia 14 de outubro de 2002, uma segunda-feira,feriadão escolar pelo dia do professor que seria na terça, dia 15. Não tivemos aula na segunda e alguns amigos se reuniram na minha casa, jogamos carta, comemos brigadeiro na panela...
Minhas aulas era a tarde e de terça a quinta eu fazia um cursinho a noite. Porem,devido ao feriado, não haveria aula na terça no cursinho e o professor de química marcou aula para segunda... eu sempre amei estudar, sempre fui muito dedicada, mas sem pre fui péssima em química.
Meus amigos foram embora e eu me preparei para ir na aula de química.
Uma amiga me convidou pra matar aula, eu topei... mas quando passamos pelo ponto de ônibus a nerdice falou mais alto e resolvi ir.
Nunca havia pego ônibus da minha casa pro cursinho, mas sabia que na frente do ponto eu pegava ônibus do cursinho pra casa, havia outro ponto, onde eu devia descer.
Chegando perto, dei sinal pra descer, mas havia um carro parado no ponto de ônibus, o motorista não parou e me deixou no ponto seguinte, no final da rua, escura e conhecidamente perigosa. Era próximo das 19h. Desci e vi um homem sentado nas escadas de entrada de um sobrado da esquina. Segui meu caminho de volta pro cursinho, quando ele me segurou pelo braço, me obrigando a vira e calçando uma faca na minha barriga. Foi tudo muito rápido. Aquilo que falam de passar um filme na sua frente, é verdade. em segundos pensei centenas de coisas. Na hora que ele me segurou eu puxei o braço e falei " Me solta, tá louco???!!" e só depois senti a faca.
Ele foi me direcionando pela rua, me levando pra Gare da Viação Férrea, eu morava em Santa Maria-RS. A Gare,na época, era bem abandonada, apenas havia movimento lá, nos domingos de "brik".
Eu ofereci dinheiro, ofereci celular e ele apenas disse: "não quero nada de você"
Nesse momento eu sabia o que ele queria e pretendia fazer e eu só pensava em ficar viva.
Ele me fez atravessar as ruínas da Gare e ir para plataforma... foi quando vi 2 guardas e me enchi de esperança, mas aí a faca falou mais alto,o medo... passamos pelos guardas, o homem comigo cumprimentou-os com um aceno, por um momento achei que os 3 iriam fazer algo.. ele me levou pra uma parte sem iluminação, me obrigou a beijá-lo com a faca em meu pescoço, me mordeu.
Me levou mais longe da plataforma e me fez sentar... ficava me fazendo perguntas, e eu tentava fazê-lo me liberar. Ele ficava passando a faca em minhas pernas, braços, pescoço, alisava meu cabelo e meu rosto. Eu não chorava, mas tremia muito. Disse a ele que tinha aula e poderíamos nos encontrar no outro dia, foi uma tentativa de sair dali e chamar a polícia..tentei de tudo... tudo foi em vão. Mas no meio dessa conversa louca, ele largou a faca e não pegou mais.
Então me fez levantar e atravessar a plataforma, foi ai que vi uma chance.. joguei minha mochila nele pra distraí-lo e corri, corri e gritei por socorro, de repente ele me puxou pelos cabelos, cai e fui arrastada pelo concreto da plataforma.. me machuquei..e o socorro dos guardas não veio.
Ali me entreguei..sabia que seria morta.. sem a faca seria a pedradas, socos...sei lá... já estava ferida e nas mãos dele.
Ele me fez andar pelos trilhos do trem, até um matagal.. e lá me estuprou. 3 vezes. Me fez fazer sexo oral, vomitei.. ele gostou. Tentou me penetrar no sexo anal, não conseguiu. Me estuprou de novo.
Eu rezava enquanto ele fazia tudo. não chorava. Estava em choque, esperando que me matasse logo e que aquela tortura acabasse.
Acabou.
Ele fez eu me vestir e foi me levando de volta... eu esperando a morte vir.. não percebi que estava sangrando, que minha roupa estava rasgada, que haviam gravetos cravados em minhas pernas... não sentia dor. Estava em choque.
Passamos pelos guardas de novo, eles viram meu estado, mas nada fizeram. Ele me largou no ponto de ônibus e saiu. Eu só queria ir pra casa. Atravessei Santa Maria de ônibus e ninguém me ofereceu ajuda. Cheguei em casa e contei pra minha mãe. O desespero foi enorme, gritos, minha mãe me colocou no seu colo e tentava limpa o sangue. Uma vizinha, amiga nossa veio correndo e me viu. E nos ajudou. Eu só queria ir na delegacia, ainda não sentia dor e nem percebia meu ferimentos.
Pedi que ela tirasse a mãe de perto de mim e me levasse na polícia.
Fomos, Feito o BO, voltamos no local do crime, os guardas falaram que não interferiram pq acharam que era uma "briga de casal".. parti pra cima dele.
Depois fui encaminhada ao hospital, onde passei pelo meu primeiro exame ginecológico, com um homem.
Foi retirado sangue pra exames, recebi medicação e fui pra casa com a recomendação de tomar banho.. pois o exame de corpo de delito só seria realizado as 15h da tarde do outro dia...
No outro dia de manhã fui em 2 delegacia diferentes olhar fotos, nenhuma das 5.300 fotos que vi, era do cara.
A tarde, eu já estava dopada, babava, não tinha forças e dor tomava conta de mim... foi feito o exame de corpo de delito e a coleta do sêmen que estava em mim.
Fui para casa e tomei o melhor banho da minha vida.
Na quinta-feira fui chamada para fazer o reconhecimento. Era ele. Vi pelo vidro espelhado. foi preso. Foi condenado. E hoje já está solto, saiu por bom comportamento.
Eu fiquei dias sem conseguir andar direito, meu corpo ferido, muita dor, fraqueza, não dormia... Foram 2 anos com pesadelos.
Terminei o ano escolar, repeti 2 anos depois disso. Não queria mais estudar, não queria mais me cuidar... não queria mais viver. tentei tirar minha vida.Minha relação com minha mãe foi abalada. A Laura foi dividida entre antes e depois disso. Eu mudei. Tive depressão, sindrome do pânico. Engordei.
Tinha picos de extrema alegria e de extremo isolamento.
Superei com ajuda de amigxs e de minha família (mãe e irmã) ,recebi apoio de muitxs pessoas. Nunca me calei, nunca escondi. Superei, mas jamais esqueci.
Fui culpabilizada por amigxs e familiares com frases do tipo "ah tu tava de saia..." .
Me perguntaram se eu era virgem quando isso aconteceu, como se se ser ou não diminuísse a violência. Se não fosse, era "menos pior".
Quando recomecei minha vida sexual, fui reprimida.
Hoje vocês sabem.. luto pela autonomia da mulher, luto pela nossa liberdade sexual , pelo nosso corpo. Não aceito mais esse tipo de papo comigo e sou muito feliz assim, mesmo que muitas pessoas próximas achem isso condenável ou "impróprio".
Meu corpo, minhas regras.
Laura Muller Sagrilo

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