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quarta-feira, 28 de maio de 2014

RELATO N° 46

46º Relato 

M. vc é linda! E não está sozinha! 

"Sou a filha mais velha de um casal que sempre foi muito trabalhador. Minha mãe nunca foi do tipo que lavava, cozinhava e cuidava da casa, e por isso ela sempre dependeu de diaristas e empregadas mensais em casa. Justo na época em que eu crescia e começava a formar minhas concepções acerca dos relacionamentos humanos, minha mãe se encontrava submersa em uma profunda depressão, vítima do espírito controlador do meu pai. Não é que ele seja uma má pessoa - não é - mas se a gente se recolhe e deixa que ele tome conta da situação, ele nos afoga em suas vontades. E minha mãe, por ter um passado difícil, por ter crescido sem pai, sem referencial do que seria uma relação saudável entre um homem e uma mulher, vivia recolhida em si. Era frustrante, e eu a ODIAVA por isso. Entenda, eu nunca pude conversar com ela sobre sexo ou sobre namoros, e gostar de alguém.
Na verdade, eu descobri o sexo através de uma das empregadas que trabalhou pra gente. Ela tinha um relacionamento completamente perturbado com o porteiro do prédio em que morávamos, e, um dia, eu os flagrei em casa (devia ter por volta dos nove anos). O cara fez a cabeça dela pra me envolver nos jogos sexuais dos dois, e foi assim que me tornei um brinquedo sexual deles, por assim dizer. Não consigo recordar com clareza por quanto tempo ele "me usaram". As memórias desses tempos nunca me surgem claras ou em ordem cronológica. Creio ter sofrido o que os terapeutas chamam de dissociação. Recordo-me de momentos, isolados, mas não consigo ordená-los ou situá-los no tempo. Não posso dizer que sofri um estupro, porque entendo que para isso teria sido necessária ocorrer a penetração, certo? No começo, eles me obrigavam apenas a assistir enquanto faziam sexo na cama dos meus pais, ou na minha cama. Depois de um tempo, ela me obrigava a ficar por perto enquanto eles transavam e ele acariciava minha bunda. Daí pra tentar comer o cu, foi um passo. É sério, esse deve ter sido o dia mais estranho da minha vida, porque eu não sabia o que era aquilo, o que tava acontecendo. Ele me virou de quatro sobre a minha cama, e disse que ia me comer, acho que pôs uma camisinha e sem dó tentou forçar tudo pra dentro, só que eu gritei e ela impediu que ele continuasse - agora entendo que é porque alguém da minha família com certeza notaria e suspeitaria logo dela, que era minha babá. Uma vez ele me forçou a chupar o pau dele, eu lembro do gosto até hoje, era horrível.
Eu lembro do rosto dele, de como ele me olhava e de como eu me sentia tão pequena e suja, lembro de como ele costumava me chupar ou de como me fazia tomar nas coxas e gozava em mim depois. Eu não sei porque nunca fiz nada, ou porque nunca contei pros meus pais. Foi mais ou menos nessa época também que eu comecei a me masturbar, e isso só piorava as coisas, porque, se por um lado eu gostava das sensações físicas que sentia, por outro era extremamente errado que eu experimentasse aquilo (era como eu me sentia). Lembro que um dia escrevi no meu diário algo como "sou uma pessoa má, sou uma pessoa má por foder com o Xxxxxxxx". Foder. Que criança de 9/10 anos de idade é obrigada a saber o peso dessa palavra desde cedo? Foder é diferente de fazer amor, é diferente de sexo, é diferente de transar. Foder é mais pesado, é mais agressivo, foder não me parece adequado no vocabulário de uma menina de 10 anos. Não que seja errado que ela use essa palavra, mas porque é uma coisa muito além as compreensão de uma criança.
A pior parte é que eu sentia prazer quando ele me chupava. E por muitos e muitos anos depois disso eu sentia que era minha culpa gostar disso, que eu não tinha esse direito e que eu era uma pessoa má, suja, errada, incapaz de ser pura, boa, benevolente ou de um dia merecer o amor sincero de um cara.
Ah, detalhe, além de tudo isso, os dois ainda praticavam uma espécie de tortura psicológica comigo. O cara dizia que um dia comeria a minha mãe - e dava a entender que poderia fazer isso a força, se fosse preciso. E que tiraria meu "cabaço"(virgindade), como ele dizia em sua violência. E ela gostava de dizer que meu pai usava drogas, que ele dava em cima das moças que trabalhavam em casa, que ele tinha um filho fora do casamento… Uma vez meu pai percebeu minha tristeza e pediu pra conversar comigo a sós, e ela disse que eu seu contasse pra ele o que tava acontecendo, ele faria a mesma coisa comigo. Meu pai queria me ajudar e ela me fez ter medo dele… Quando fui crescendo, fui percebendo melhor o que eles faziam comigo e decidi que não queria mais que isso acontecesse. Foi quando eu comecei a reagir. Se ela deixava ele entrar em casa e ele vinha pra cima de mim, eu gritava ou jogava almofadas nele. EU NÃO AGUENTAVA MAIS.
Um dia, não sei o que a moça fez de errado em casa, mas ela foi despedida. Aí eu já me sentia segura em casa. Mas não saia de lá. Não brincava com outras meninas do prédio, não gostava de ter que ir comprar pão na esquina. Ele sempre dava um jeito de me encontrar pelos corredores e me abraçar ou tentar me beijar. Sempre que eu tinha que sair de casa, e estava sozinha, eu corria pelo prédio, com medo. Só contei pra alguém da família o que tinha acontecido quando tinha por volta dos 12/13 anos. Foi pra minha tia (que também é minha madrinha), e ela que pediu minha permissão pra contar sobre isso pros meus pais. Eu lembro que a minha mãe me apertou como não fazia antes, me abraçou bem apertado, e ela não conseguia falar nada e chorava muito, muito mesmo. Aquele choro sofrido, que sai bem de dentro da gente e parece que machuca mais do que a dor em si, você sabe como é? Eu me senti muito obrigada a ser forte, fingir que não era nada e que eu tava bem, porque ela não tava, e isso era claro pra mim, sabe? Meu pai ficou muito mal também, ele queria machucar aquele cara fisicamente. Eu nunca, em toda a minha vida, tinha visto meu pai chorar.
Até os meus dezessete anos de idade eu vivi uma farsa. Tirava boas notas, tinha amigos, mas era retraída. Fiz terapia dos 12 aos 15, mas não aprendi nada ali, porque eu fingia estar bem e não contava meus medos e traumas pra ninguém, nem pra minha psicóloga. Eu tinha que ser forte. E eu tinha muito medo de não conseguir. Não me aproximava de garotos, e vivia num mundo completamente irreal, minha criação. Gostava de imaginar que a minha pele era bem branca e eu era loira e delicada.
Quando me interessava por garotos, não conseguia me aproximar deles de jeito nenhum, e nunca fui alvo de cantadas. Eu era a amiga feia do grupo, sabe? Eu me sentia extremamente feia, e eu achava que por ter manchas no corpo, por ser gordinha, por ter a sobrancelha grossa, enfim, por não ser a típica menininha delicada, eu não merecia o amor/atenção/afeto de ninguém da minha idade. Eu sentia que só merecia a atenção de caras mais velhos e nojentos, como o cara que abusou de mim. Eu não conseguia andar na rua sozinha, nem dirigir a palavra a pessoas que não faziam parte da minha zona de conforto. Acho que perdi muita coisa nesse tempo. Meu primeiro beijo foi aos quinze anos. Minha primeira relação sexual foi aos 20.
No ano do convênio minha farsa começou a ruir. Era o ano em que as pessoas começavam a decidir o que queriam pro resto de suas vidas, e se eu só vivia em um mundo de faz de contas e evitava mergulhar em mim, como saber quem eu era ou o que queria? Voltei a ficar retraída, ia pra aula mas não prestava atenção em nada e não conversava tanto com meus amigos, passava a aula inteira escrevendo coisas sobre minhas tristezas num diário. Também usava a internet como fuga, amigos virtuais e jogos de rpg tomavam meu tempo. Isso me trazia muitos problemas com meu pai, que não entendia porque eu era assim. Foi nesse ano que voltei à terapia com a mesma psicóloga que tinha me atendido antes. (E foi por volta dessa época que minha mãe finalmente começou a se respeitar como indivíduo e sair da bolha de submissão que ela vivia. Hoje em dia ela é minha melhor amiga, e é a pessoa que eu mais amo e respeito em todo o universo. Eu sinto tanta pena dela por ter perdido muito tempo da vida sem fazer as pazes consigo mesma :/)
Entrei em duas faculdades em 2010, e continuava me sentindo triste e sem perspectiva. Tive que largar a terapia de novo, por conta do horário corrido - e também porque, sinceramente, tava de saco cheio dessa médica que nunca percebeu que eu fazia uma capa de firme, mas me encontrava completamente perdida em sentimentos ruins (tudo bem, até então nem eu sabia disso, mas não era esse o papel dela?). Por essa época comecei a largar a fantasia, e comecei a mergulhar em mim, de verdade, me conhecer melhor. Foi quando eu comecei a revisitar aquelas coisas que aconteceram na minha infância e que me magoavam tanto. Esse processo levou um tempo, e foi acompanhado de muito choro de dor na madrugada, que às vezes me impedia de dormir decentemente; de morder os braços e me arranhar; de dar socos no estômago embaixo do chuveiro; e a intensificação de uma coisa que eu já fazia desde a época da escola: arranhar e cutucar/estourar umas bolinhas que apareciam nas minhas costas, braços e pernas e que são decorrentes de um processo alérgico, genético. Tenho as manchas até hoje.
Inclusive, essas mesmas manchas eram causa constante de sofrimento, porque eu achava que nenhum cara gostava de mim por essas coisas que estavam erradas e eram feias em mim, como as manchas no meu rosto e nos meus braços. Cheguei a ficar com mais um cara na época de escola, mas foi completamente broxante, evitava as ligações dele, e me sentia mal por ter ficado com ele.
Constantemente me comparava às minhas amigas, e as achava muito mais bonitas, legais, divertidas e interessantes do que eu. Eu queria ser como elas, ou melhor, queria ser qualquer outra pessoa, menos eu. Mais ou menos em outubro de 2011 eu finalmente contei TUDO pra minha mãe. Como eu me sentia, como eu tinha certeza de que jamais conseguiria ser feliz no mundo real, de que eu não era capaz de arranjar um emprego, de ter uma família, de como eu me sentia vazia, de como eu pensava em me matar quase todos os dias, de como eu sentia que vivia na iminência de uma coisa muito ruim acontecer comigo a qualquer instante. De como nada, absolutamente nada, me dava prazer - exceto a masturbação, mas eu continuava a me sentir vazia por fazer isso periodicamente. Aí a gente procurou ajuda médica, fizemos exames, e por volta de novembro ou dezembro eu comecei a tomar medicação antidepressiva.
Em dezembro, meu amigo I. veio pra cá de novo, e no primeiro dia que a gente se viu eu tomei a iniciativa de beijar ele, mas fiz isso por achar que eu podia, mas não por realmente querer. Ainda era estranho ficar com alguém, e eu tinha certeza de que não ia dar certo, e que eu não sabia como, nem conseguiria ficar com uma pessoa firme. Eu não sei te dizer o que ele tem, ou como funciona isso, mas eu tava enganada. A gente acabou ficando e ficando, e eu me sentia cada vez mais confortável com ele. Cheguei a contar por alto o que tinha acontecido comigo quando eu era menor, e a gente tava deitado na cama e ele me abraçou bem forte e deixou que eu chorasse no ombro dele, e isso teve um significado especial pra mim. Eu senti que naquele dia esse carinha quebrou uma barreira que tinha em mim e que me impedia de confiar nas pessoas e de me abrir emocionalmente. A gente não chegou a transar, mas eu redescobri meu corpo por causa dele, pela visão dele. Os peitos que antes eram muito grandes e feios e caídos, viraram peitos bonitos e macios. O corpo que antes era OBESO virou um corpo fofo, bom de apertar (e que eu aperto mesmo, porque eu gosto de me permitir brincar comigo mesma e me conhecer a fundo). Mas eu não superei minha buceta. Eu acho minha buceta completamente feia, e já fiz muita pesquisa de fotos na internet só pra me torturar, e eu juro que isso às vezes me faz chorar o mesmo choro sofrido que eu já comentei antes; eu chego no ponto de realmente sofrer por causa disso.
Ainda assim, acho que tô num momento bom, o melhor momento que já estive desde meus 8 anos de idade. Eu nunca mais fui feliz de verdade depois disso, mas agora to tentando ser a todo o custo. E eu quero gostar de mim por inteira. Às vezes tenho recaídas assombrosas, me dá vontade de mandar todo mundo que tá perto de mim ir se foder, me dá vontade de ficar dias sem tomar banho, de não sair de casa, de não comer, de dormir o dia todo. Mas o remédio me ajuda muito. Continuo sem sair pras festas com meus amigos, mas acho que nesse semestre vou me concentrar em tentar sair e relaxar de verdade.
Enquanto escrevia esse relato, lembrei de coisas, chorei, sofri, mas lembrei também que eu sou forte, muito forte, e uma pessoa boa de verdade. E isso, essa redenção que eu venho me proporcionando desde 2011, não tem preço. Essa é a melhor coisa que eu posso fazer por mim. "

M.

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